Postos de Puerto Iguazú limitam quantidade de gasolina a estrangeiros, não a argentinos

Postos de Puerto Iguazú limitam quantidade de gasolina a estrangeiros, não a argentinos

Vídeo atribui longa fila para abastecer em posto argentino ao 'comunismo' no país, mas não explica que restrição de venda de combustível é apenas para brasileiros e paraguaios

Clarissa Pacheco

03 de agosto de 2022 | 17h00

Não é verdade que motoristas na Argentina só podem abastecer com até 15 litros por pessoa em postos da cidade de Puerto Iguazú. A informação enganosa aparece em um vídeo gravado por um motorista que passa ao lado de uma fila de um posto de combustível na cidade argentina, que faz fronteira com o Brasil e com o Paraguai. De fato, existe um limite de 15 litros por motorista, mas isso se aplica apenas a veículos com placa estrangeira – brasileiros e paraguaios – que atravessam a fronteira para abastecer em Puerto Iguazú, onde o combustível é mais barato.

Mais de um post viralizou no Facebook com o mesmo conteúdo, somando mais de 12 mil interações. Leitores do Estadão Verifica também pediram a checagem do conteúdo através do WhatsApp, pelo número (11) 97683-7490.

Em dezembro de 2021, a prefeitura de Puerto Iguazú, que faz fronteira com o Brasil na cidade de Foz do Iguaçu, no Paraná, publicou um decreto que estabelece que um limite de 15 litros de combustível para veículos brasileiros e paraguaios que abastecem na cidade. O Decreto nº 46/2021 também determina que os postos de combustível tenham uma bomba específica para motoristas estrangeiros. O decreto ainda está em vigor, de acordo com apuração da Reuters.

No texto do decreto, assinado pelo Conselho Deliberativo da cidade, consta que a medida foi motivada pelo grave problema de abastecimento que atingia Puerto Iguazú, derivado das “assimetrias econômicas com os países vizinhos Brasil e Paraguai”. O decreto diz ainda que “o preço do combustível favorece o consumo de combustível de cidadãos estrangeiros provenientes do Brasil e do Paraguai” e que a alta demanda estrangeira estava provocando uma escassez de combustível na cidade.

Por isso, o documento de 16 de dezembro de 2021 declarava estado de emergência de abastecimento de combustível em Porto Iguazú por um prazo de seis meses, prorrogável por igual período enquanto as condições continuassem as mesmas. No vídeo aqui verificado, o homem que narra as imagens diz que a gravação foi feita no dia 28 de julho. No dia 29, ela foi compartilha por uma página do Rio Grande do Sul e no dia 30, por outra de conteúdo conservador. Ambas atribuíram a fila e a limitação de combustível à presença do “comunismo” no país.

Notícias na imprensa brasileira e argentina

Embora o decreto seja de 16 de dezembro de 2021, a medida que limitou a quantidade de combustível em Puerto Iguazú para estrangeiros já estava sendo colocada em prática um pouco antes. Em 4 de novembro do ano passado, o jornal Clarín noticiou que paraguaios e brasileiros que cruzavam a fronteira já não podiam mais encher os tanques, e sim comprar apenas 15 litros de combustível.

No mesmo dia, o site Cabeza News, do Paraná, também publicou sobre a limitação. Na época, segundo o site, o preço médio do litro de gasolina em Foz do Iguaçu era de R$ 6,30, enquanto Puerto Iguazú vendia o combustível a cerca de R$ 3 por litro. Era o preço baixo que também atraía motoristas de Ciudad del Este, cidade paraguaia que faz fronteira com a Argentina por Puerto Iguazú.

No dia seguinte, o portal UOL noticiou que a medida tinha sido tomada por donos de postos, que vendiam a gasolina a R$ 3,15 o litro. O objetivo era desmotivar os estrangeiros a irem à cidade argentina, mas o UOL voltou a mostrar, em março de 2022, que os brasileiros continuavam enfrentando longas filas para abastecer em Puerto Iguazú – até quatro horas de espera – mesmo que o combustível lá também tenha subido de preço, variando de R$ 5,17 a R$ 5,56 (gasolina aditivada). Em Foz do Iguaçu, a mesma gasolina variava de R$ 7,30 a R$ 7,49 o litro.

O local das imagens

No vídeo, o homem afirma que está passando por uma fila de carros para abastecer em Puerto Iguazú e que há uma longa fila porque “não tem gasolina, não tem diesel, não tem nada”. Ele acrescenta que cada pessoa só pode abastecer com até 15 litros e completa: “Bem-vindo ao comunismo, bem-vindo à Argentina”.

As imagens foram mesmo feitas em Puerto Iguazú. Na cidade, só há um posto da rede Shell, que aparece ao final do vídeo. Ele fica numa esquina entre as avenidas Córdoba e Misiones. Não é possível ver o valor do combustível, nem confirmar se todos os carros da fila têm placas estrangeiras. A Reuters, que também verificou este conteúdo, apurou que um táxi que aparece nas imagens tem o mesmo padrão dos táxis de Foz do Iguaçu. O mesmo conteúdo foi checado pelo Boatos.Org.

É possível identificar no vídeo e no Google Maps ao menos três elementos que aparecem no mesmo trajeto do vídeo checado:  um prédio verde que se assemelha a um galpão em frente ao posto, uma unidade do Grupo Assegurador La Segunda e um edifício de três andares com fachada cinza e vermelha, onde é possível ver algumas palmeiras.

O Estadão Verifica procurou a página Plantão 190 RS, possivelmente a que primeiro postou o conteúdo no Facebook, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. A Prefeitura de Puerto Iguazú também foi procurada, mas não respondeu até a publicação desta checagem.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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