Tristeza e indignação

Eliane Cantanhêde

05 de novembro de 2016 | 13h39

Carlos Emilio e Jaqueline Sartorio, nesta carta, falam por milhares de outros pais de alunos  que “sobraram” no ENEM deste fim de semana. A eles, minha solidariedade:
“Somos pais do Tadeu, um jovem estudante que estudou MUITO o ano todo, sem descanso e com quase nenhum lazer, para poder fazer o ENEM e obter uma nota que o classificasse para uma boa Universidade.
“Semana passada começamos a viver o pesadelo de que seu ENEM fosse cancelado, pois fora alocado para o Campus II Humaitá do Colégio Pedro II, na Rua Humaitá 80 – Botafogo, Rio, e já sabíamos que vários outros Campus deste Colégio estavam ocupados. Fomos em quatro dias seguidos a este local para monitorar a ocupação, mas até segunda-feira, dia 31/01, o Campus permanecia desocupado. À tarde os alunos ocuparam o Campus. Parece brincadeira : deixaram para ocupar ontem, no final do prazo dado pelo MEC para que as Escolas fossem consideradas aptas ao ENEM pelo INEP para serem local de prova.
“Estivemos lá na segunda-feira à noite e conversamos pessoalmente com um grupo de alunos que controlava a portaria. Percebemos então a ironia : muitos deles vão fazer o ENEM, em outros locais de prova. Para isto vão ter que deixar a ocupação – e provavelmente voltar para lá em seguida – enquanto que, no mesmo momento, dezenas de milhares de estudantes terão sido privados em concorrer em igualdade de condições contra os outros 98 % de candidatos do ENEM.

“Isto é, por conta da ocupação eles prejudicarão diretamente aos outros candidatos, enquanto preservam o seu direito de prestar o concurso e seu direito de protestar. Aos que perderam a chance, lamentando a oportunidade perdida, só restará olhar estes alunos preservando todos os seus direitos – inclusive, no caso do Colégio Pedro II, de estudar numa das mais conceituadas escolas do país, e de graça.
“Alguns podem pensar: tiveram sorte em ter a prova adiada, vão poder estudar mais. Grande engano : para um aluno que estudou o ano inteiro e está pronto e ansioso, tudo o que deseja é fazer a prova na data prevista.
“Aqui no Rio, o problema é pior para aqueles que querem disputar uma vaga na UERJ, que tem exame vestibular separado: agora, em vez de ter um mês para se preparar para este concurso, com provas de conteúdo e método muito diferentes do ENEM, terão que se dividir entre duas frentes de estudo. E com certeza os que terão este desafio são jovens que necessitariam, por condição financeira da família, do acesso a uma Universidade Pública.
“Diante de todo este paradoxo, nos resta agora reunir as forças para continuar apoiando Tadeu em mais um mês de luta até a nova data. Daqui a pouco, enquanto alguns jovens, que exerceram seu direito de ocupar escolas poderão sair e fazer o ENEM, outros terão que iniciar uma amarga espera de 30 dias até a próxima prova por conta das ocupações realizadas.

“Onde está a ética neste país ? Podemos, para exercer um direito, tirar o direito à oportunidade de outro cidadão ?”

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