Temer pintado para a guerra

Eliane Cantanhêde

27 de junho de 2017 | 16h35

Sempre tão frio, contido, formal, o presidente Michel Temer foi mercurial na sua declaração pela TV e partiu diretamente para cima do procurador geral da República, Rodrigo Janot. Classificando a denúncia contra ele de “ilações”, Temer fez uma comparação: se a mala de dinheiro de Rocha Loures foi para ele (como acusa a PGR), por que os “milhões” que o ex-braço direito de Janot, Marcelo Miller, teria ganhado para advogar na delação da JBS não seriam também de Janot?

É uma estratégia arriscada, mas tem um alvo certo: a Câmara dos Deputados, que vai ser chamada a autorizar ou não o prosseguimento do processo contra o presidente no Supremo. A intenção do Planalto, somando aí ministros, marqueteiro e assessoria jurídica, é criar um confronto entre Janot e Temer na Câmara, onde o procurador é considerado “algoz dos políticos” e o presidente viveu grande parte de sua vida pública, inclusive presidindo a Casa por três vezes.

Incisivo e cercado por políticos da base aliada _ para demonstrar apoio político e condições de sobrevivência _, Temer centrou sua fala justamente na tese de que a denúncia não passa de “ilação”, “infâmia política”, “precedente perigosíssimo”, “trabalho trôpego”, “trama de novela”, “denúncia de ficção”, “embriaguez da denúncia” e, finalmente, “atentado contra o País”.

No jargão jornalístico, Temer criou assim várias opções de “lide”, ou seja, de títulos e manchetes para os jornalistas que se espremiam no mesmo salão onde Dilma Rousseff também tentou, um dia, salvar o próprio pescoço. Sem sucesso.

Por fim, o presidente deixou claríssimo que não pretende renunciar ao mandato, nem vai seguir a sugestão de Fernando Henrique Cardoso, endossada por Lula, de antecipação das eleições. “Não fugirei das batalhas nem da guerra que vem pela frente”. O Temer do pronunciamento estava pintado para a guerra.