Perdeu o timing

Eliane Cantanhêde

07 de julho de 2016 | 17h58

O deputado Eduardo Cunha fez a coisa certa, na hora errada. Ao renunciar à presidência da Câmara, ele tenta desesperada e inutilmente salvar o mandato, mas é tarde demais. Ele já estava fora da presidência de fato, já tinha perdido apoios em todos os partidos e já se transformara num estorvo para o Palácio do Planalto do correligionário Michel Temer. Logo, sua renúncia é um alívio para todos, menos para ele próprio, pois não deve lhe conferir nenhum voto a mais nem na CCJ nem no plenário.

Cunha acabou e o mundo político nem discute mais o que fazer ou o que vai acontecer com ele. O que interessa agora é o que fazer com a presidência da Câmara, que foi entregue primeiro a ele, apesar de toda a sua biografia e as nuvens de suspeitas que carrega em sua vida pública, e depois a Waldir Maranhão, considerado por dez entre dez parlamentares como o homem errado, no lugar errado, na hora errada.

A última tacada espetacular tentada por Cunha é justamente fazer o seu sucessor, mas as chances encolhem na proporção inversa da sua desgraça. Até para Temer, ou principalmente para Temer, é impensável ter um apadrinhado de Cunha simultaneamente na liderança do governo (André Moura) e na presidência da Câmara (Rogerio Rosso?).

Contra um candidato de Cunha e do “Centrão”, há uma dúzia de candidatos que têm um único ponto em comum: são todos contra Cunha. Se há tantas opções é porque não há nenhuma efetivamente, mas o perfil parece estar traçado: não pode ser do PT, do PSDB nem do PMDB, não pode ser um óbvio ficha suja, nem pode ter sido gritantemente pro nem contra o impeachment de Dilma Rousseff. Por que? Porque precisa ser minimamente consensual, não um reforço ao grave racha da Câmara.

O fato é que, quanto mais alto, maior o tombo. A queda de Cunha, portanto, é um tombo  fenomenal, porque ele foi o presidente mais forte da Câmara em décadas e sai do cargo isolado, abatido, com os olhos cheios de lágrimas e, pior, enrolado até o último fio de cabelo na justiça.

Sem a presidência, Cunha não tem mais força política para manter o mandato. Sem o mandato, perde o foro privilegiado. Sem o foro  privilegiado, sai do Supremo direto para… o juiz Sérgio Moro. Para muitos, é sinônimo de estar a caminho da cadeia.

 

 

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