Lula lá, no Nordeste

Eliane Cantanhêde

12 de julho de 2016 | 11h56

Depois de um bom tempo sem aparecer, Lula deu longa entrevista hoje, à Rádio Jornal, de Pernambuco, tentando fazer graça com suas agruras na Lava Jato: “Incomoda. É como coceira, coceira de carrapato”. O tom foi de candidato, desenvolto, irônico, deixando em aberto a possibilidade de concorrer em 2018: “Só não serei candidato se o Brasil der certo”. Apesar disso, escapuliu da pergunta sobre o governo interino e não deu uma palavra sobre erros, acertos e perspectivas de Michel Temer.

Dúbio, Lula elogiou as operações para o combate à corrupção, mas criticou “abusos de autoridade”. Disse que “ninguém está acima da lei”, mas reclamou da “invasão” à sua casa, quando sofreu condução coercitiva para depor. Gabou-se de ter fortalecido a Polícia Federal e o Ministério Público nos seus governo, mas condenou “a pirotecnia, quando as pessoas são condenadas pelas manchetes de jornal”. Por fim, voltou a ironizar as investigações sobre seus filhos: “Dizem que meu filho é dono da Friboi, da Casa Branca, da Torre Eifel…”

Quanto a Dilma: Lula criticou duramente a crise econômica, o desemprego etc…, e chegou a dizer que “as pessoas perderam os sonhos”. Parecia líder de oposição, parecia se referir a 13 anos de outro partido, não do PT, parecia esquecer que foi ele quem forçou a eleição de Dilma Rousseff e parecia negar que a crise é resultado direto dos erros e da arrogância da sua pupila.

Ele, aliás, só fez rápidas referências a Dilma Rousseff. Uma, quando disse que Temer não deveria ter mudado tudo, porque o processo no Congresso continua e “Dilma pode voltar”. Outra, quando disse que jamais gostaria de ter vivido o dia em que ela foi afastada da Presidência. “Eu disse a ela: ´Você pode ter cometido todos os erros do mundo, mas não o crime pelo qual está sendo acusada. Eles estão cometendo um crime contra você´”.

De “todos os erros do mundo”, porém, Lula só reconheceu um em Dilma: ela ter sido reeleita com um discurso e depois ter anunciado o ajuste fiscal, ter feito “a política dos adversários”. Em nenhum minuto, ele admitiu todos os grandes erros de Dilma durante o primeiro mandato, na economia, na política, na ética. O erro não foi propor o ajuste, foi ter criado todos os desajustes. Aliás, para Lula, a crise econômica é basicamente resultado de uma coisa: as desonerações fiscais, que desequilibraram as contas públicas. Foi pouco mea-culpa para muita culpa.

A entrevista foi para o âncora Geraldo Freire, ao vivo, direto de Petrolina (PE), onde Lula lidera a “Caravana da Democracia”, com manifestações contra o impeachment de Dilma Rousseff.

 

 

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