Jucá é insustentável

Eliane Cantanhêde

23 de maio de 2016 | 12h29

Assim como Dilma Rousseff perdeu as condições de governabilidade, Romero Jucá não se sustenta como ministro do Planejamento, cargo-chave para juntar duas pontas fundamentais para o governo interino de Michel Temer: as medidas econômicas contra o rombo abissal de R$ 170 bilhões, começando pela aprovação da nova meta fiscal, e um Congresso Nacional turbulento, indócil e imprevisível.

Já há uma gritaria dos antigos governistas, atuais oposicionistas, para pedir a prisão de Jucá, tentando equiparar o caso dele com o do ex-líder do governo Dilma no Senado, Delcídio Amaral, que se tornou o primeiro senador preso depois de ser grampeado oferecendo mundos e fundos para impedir a delação premiada de Nestor Cerveró. Os dois casos, porém, não são iguais: Delcídio tentou obstruir a Justiça oferecendo ajudas concretas, dinheiro e até avião, para tirar Cerveró do Brasil. Jucá falou genericamente num “pacto” para “conter a sangria” da Lava Jato.

De toda forma, a situação dele, que já era periclitante desde o início, por diferentes conexões com a Lava Jato, agora se torna politicamente insustentável. O melhor que ele faria para Michel Temer, para ele mesmo e para não arranhar mais ainda as condições de sucesso da interinidade, seria se antecipar, evitar maiores constrangimentos e pedir o afastamento. Ele é homem de fazer um gesto assim? É o que se perguntam os aliados de Temer.

As conversas gravadas entre Jucá e o ex-presidente da Braspetro, Sérgio Machado, também do PMDB, transcritas pelo repórter Rubens Valente no jornal “Folha de S. Paulo”, são explosivas e atingem em cheio o projeto Temer, numa hora crucial e no pior dia: justamente quando ele vai ao Congresso, agora à tarde, às 16h, conversar com o presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre a necessidade inadiável de aprovar uma nova meta fiscal e preparar terrenos para reformas que sirvam de sinal para o mercado e para a opinião pública de que há luz no fim do túnel da economia.

O afastamento de Jucá, por demissão ou por decisão dele, é uma resposta óbvia para a crise, mas não resolve tudo, muito pelo contrário. Ele sai, mas o rastro das gravações ficam. As conversas dele com Machado, sobre impeachment, sobre circunscrever a Lava Jato ao estágio em que está, servirão de combustível para incendiar ainda mais os movimentos que vão às ruas contra o governo Temer, até mesmo nos arredores da casa dele em São Paulo.

O estrago, portanto, é gigantesco. E deixa uma curiosidade: como é que os políticos que têm rabo preso continuam falando com tanta desenvoltura, e tanta desfaçatez, sobre o que não deveriam conversar nem mesmo entre quatro paredes, depois de uma varredura nas janelas, no lustre e na maçaneta? Essa gente, pelo jeito, adora viver perigosamente. Coitado do país.