Brasil, uma carta para Hillary, outra para Trump

Eliane Cantanhêde

09 de novembro de 2016 | 18h26

Publicado no Estadão impresso em 09/11/16 e atualizado pós-resultado da eleição americana:

Apesar de torcer pela candidata democrata Hillary Clinton, inclusive em manifestações públicas do chanceler José Serra, o governo brasileiro teve um cuidado especial diante das eleições norte-americanas: o Planalto deixou prontas duas cartas de cumprimentos, uma para o caso de vitória de Hillary, outra para o de vitória do republicano Donald Trump.

Pode-se pensar que esse é um cuidado rotineiro, mas a redação das duas cartas pelos diplomatas que assessoram o presidente Michel Temer revela claramente que no Brasil, como no resto do mundo e nos próprios Estados Unidos, ainda havia dúvidas sobre quem ganharia a eleição mais tensa, agressiva e peculiar da maior potência mundial. E em meio a um cuidadoso processo de reaproximação de Brasília e Washington, após o distanciamento dos anos Dilma Rousseff.

A preferência do governo por Hillary estendia-se ao Congresso, onde PMDB, PT e PSDB vivem às turras, mas se unem na ojeriza a Trump. Essa reação poderia render longas teses, mas fica devidamente explicada com uma única frase de importante diplomata brasileiro da ativa: “Hillary não é perfeita, mas é previsível; Trump é totalmente imprevisível”.

E por que Hillary não é “perfeita”? Porque ela, por exemplo, pode ser “pior” do que o do atual presidente Barack Obama em duas questões ao menos: tende a endurecer as posições dos EUA quanto ao conflito no Oriente Médio e ter uma relação conflituosa com Vladimir Putin, presidente da Rússia. Ela, porém, defende teses muito mais aceitáveis não apenas para o governo, mas para a própria sociedade brasileira, em temas como costumes, minorias e América Latina.

Ao contrário de Hillary, que tem longa atuação política e foi secretária de Estado de Obama, Trump é um arrivista na política interna e na política externa. A lista de temores do Planalto e da diplomacia brasileira é grande: ele pode, ou poderia, fechar os EUA ao resto do mundo e à América Latina, criar efetivamente um muro na fronteira com o México, deportar massas de muçulmanos, desfazer o endosso a protocolos ambientais importantes…

Em entrevista à Globonews, Serra admitiu que não é usual o Itamaraty se manifestar sobre eleições de outro país, mas foi exatamente o que ele fez, num estilo de político, que ele é, não de diplomata, que nunca foi: “Espero que a Hillary ganhe as eleições. O Trump é um risco para o mundo”. E manifestou o temor com a “volta, ou emergência, de um nacionalismo, de um isolacionismo, que nos faria voltar aos anos 30, que tiveram um desfecho trágico que foi a II Guerra Mundial”.

Ao Estado, em 22 de maio, ele foi provocativo. Diante da pergunta sobre a possibilidade de a vitória de Trump atrapalhar a reaproximação com Washington, respondeu: “Prefiro não acreditar nisso…”. Ao “Correio Braziliense”, em 31 de julho, foi demolidor:  “Considero a hipótese do Trump um pesadelo. Todos que querem o bem do mundo devem apoiar a Hillary”.

Agora, com Hillary derrotada e Trump eleito, o Planalto jogou no lixo a carta para a democrata e enviou a escrita para o republicando. É hora de revisar o discurso, lembrar as relações históricas do Brasil com os Estados Unidos, o esforço comum pela democracia e os projetos em debate. Como disse Serra após o resultado, treino é treino, jogo é jogo. O jogo está começando agora, com uma grande torcida para que o discurso machista e homofóbico e as ameaças de Trump à estabilidade do mundo tenham sido só rompantes de campanha, para agradar a maioria do eleitorado americano. Ou seja, valia para a campanha, não vale mais para o exercício do governo. Que assim seja, amém.

 

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