Especialistas e ministro da educação reagem a pedido de deputada para que alunos denunciem professores
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Especialistas e ministro da educação reagem a pedido de deputada para que alunos denunciem professores

Renata Cafardo

30 Outubro 2018 | 14h52

Especialistas e até o ministro da Educação criticaram a atitude da deputada estadual eleita pelo PSL de Santa Catarina, Ana Caroline Campagnolo. Logo após a confirmação da vitória de Jair Bolsonaro, no domingo, ela pediu para que alunos filmassem seus professores em sala de aula e denunciassem condutas consideradas por ela como “ideológicas”. Ana Caroline postou mensagem nas redes sociais pedindo para que os vídeos fossem enviados para seu número de telefone celular, com o nome do docente, da escola e da cidade.

O ministro da Educação, Rossieli Soares, disse ao Estado que “esse não é caminho adequado para problemas dentro da escola”. “Há canais na diretoria, nas secretarias municipal e estadual para denúncias.”

Dois membros do Conselho Nacional de Educação (CNE) também criticaram a atitude da deputada. “É preciso tomar cuidado porque isso pode descambar para uma censura da atividade docente”, disse o ex-secretário de educação de Santa Catarina Eduardo Deschamps, que é também conselheiro do CNE. Para ele também, nesse momento o Brasil precisa de conciliação e não de “ações dessa natureza”. “Essa onda de denuncismo não é boa para ninguém.”

Para outro membro do conselho e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Francisco Soares, a proposta é o oposto do que se quer para uma educação de qualidade. “O importante é incentivar os alunos a pensar, questionar, refletir. E não a achar que sabe tudo e pode denunciar.”

O Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Santa Catarina também se pronunciou contra a deputada eleita. “Na sala de aula estudantes e professores têm suas posições e é importante que possam conversar sobre elas”, diz o coordenador estadual Aldoir José Kraemer.

O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) resolveu apurar a conduta de Ana Caroline. A promotoria quer verificar “possível violação ao direito à educação dos estudantes catarinenses para adoção das medidas cabíveis”.

Uma petição online criada no site da ONG Avaaz, uma entidade internacional de mobilização social, pede a impugnação da candidatura de Ana Caroline. Até esta terça-feira à tarde, havia 265 mil assinaturas. O documento diz que a deputada eleita “está incitando ódio” e tentando cercear os professores.

Ana Caroline é professora de História da rede estadual em Chapecó, tem 27 anos e foi eleita defendendo o projeto Escola sem Partido. Sua campanha foi feita basicamente pela internet, com vídeos em que ela critica o que chama de “doutrinação” de professores.

Publicação da deputada eleita nas redes sociais

Na publicação, a deputada estadual eleita argumenta que “professores e doutrinadores estarão inconformados e revoltados” com o resultado da eleição que elegeu Jair Bolsonaro presidente do Brasil. “Muitos deles não conterão sua ira e farão da sala de aula um auditório cativo para suas queixas político partidárias”, escreveu.

A deputada eleita pelo PSL de Santa Catarina Ana Caroline

Em vídeo divulgado em 2016, Bolsonaro pediu que os estudantes fizessem o mesmo. “Um recado que dou para a garotada de todo o País: vamos filmar o que acontece nas salas de aula e vamos divulgar. Os seus pais, os adultos, têm o direito de saber o que esses professores, entre aspas, ficam fazendo com você em sala de aula”, disse.

O Estado entrou em contato com a deputada, mas ela não respondeu aos pedidos de entrevista. Ana Caroline disse ontem à Rádio Chapecó que conhece Bolsonaro há cinco anos e que concorda com quase todas as suas ideias. A aprovação no Congresso do projeto Escola Sem Partido – que quer proibir discussões sobre políticas, sexualidade e gênero nas escolas – é uma das bandeiras do presidente eleito.

Em Santa Catarina, há uma lei que impede que os alunos entrem com celulares nas aulas. Para resolver essa questão, Ana Caroline sugeriu em comentários nas redes sociais que eles levassem “gravadores ou câmeras”. Depois da repercussão da postagem, ela questionou em seu perfil no Facebook: “Por que a possibilidade de gravar a aula está desesperando tantos professores?”.