Cortella, cotado para ministro de Haddad, trabalhou com Paulo Freire, criticado por Bolsonaro
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Cortella, cotado para ministro de Haddad, trabalhou com Paulo Freire, criticado por Bolsonaro

Renata Cafardo

16 de outubro de 2018 | 17h10

Apesar de hoje muito conhecido pelos best-sellers que transformam a filosofia em lições de vida, parte da trajetória de Mario Sergio Cortella está ligada à educação no PT.  Cortella foi secretário municipal da educação no início dos anos 90, na gestão da ex-prefeita Luiza Erundina, em São Paulo. Ajudou a concretizar o projeto de seu antecessor no cargo e orientador de doutorado, o educador Paulo Freire, que queria uma escola pública com gestão democrática e que estimulasse a curiosidade crítica dos estudantes.

O programa de governo de Jair Bolsonaro (PSL) menciona que pretende “expurgar a ideologia de Paulo Freire”, considerado por ele como “doutrinador” das ideias de esquerda nas escolas. Freire, cuja obra é conhecida mundialmente e uma das mais lidas na área em universidades brasileiras e estrangeiras, é um dos fundadores do PT e defendia que a escola “não apelasse para memorização mecânica dos conteúdos”.

Há quem diga que Cortella considera Fernando Haddad (PT) liberal demais e tem até críticas a algumas de suas ideias na educação. Mas os dois são amigos, conversaram por telefone no domingo e ele disse que estaria disposto a colaborar em um eventual governo do PT. Pela popularidade que conseguiu como autor de best-sellers como “Por que fazemos o que fazemos” e “Viver em paz para morrer em paz” e como comentarista da Radio CBN, Cortella é visto como um nome que conversa bem com progressistas e conservadores.

Cortella, que é cotado para ser ministro de Haddad, trabalhou com Luiza Erundina. Foto: Ricardo Chicarelli/Estadão

Filósofo, chegou a fazer parte do convento da Ordem Carmelitana Descalça antes da vida acadêmica. Depois, fez mestrado e doutorado em Educação na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), onde também foi professor. Uma das suas grandes amigas é Lisete Arelaro, que foi candidata a governadora pelo PSOL e trabalhou com ele na gestão de Erundina na educação. “Ele tem uma excelente formação, grande capacidade como negociador e é um homem de princípios”, diz Lisete. Ela conta que, na época em que era secretário, levava o filho a pé à escola para não usar o motorista oficial para fins pessoais.

O projeto de Freire introduziu a progressão continuada na rede municipal, sistema que permite a repetência das crianças apenas ao fim dos ciclos. Cortella fazia parte da sua equipe e foi escolhido secretário em 1992 quando Freire deixou o cargo.  Pesquisadores garantem que os ciclos não foram bem implementados após a saída de Erundina e entrada de Paulo Maluf na Prefeitura e por isso acabaram ficando conhecidos como aprovação automática.

Na época, a secretaria também conduziu discussões consideradas inovadoras sobre currículo, que ouvia as escolas e pais para levantar temas da realidade local que deveriam ser discutidos nas escolas. Freire também foi um dos pioneiros em introduzir tecnologia na educação.

A viúva de Paulo Freire, a também professora Nita Freire, de 85 anos, se diz “triste e desolada” pela forma como o marido tem aparecido na campanha de Bolsonaro. O educador morreu em 1997. “A gente nunca viu o Brasil acreditando em pessoas que entendem que Paulo é um mal para o País”. Durante a Ditadura Militar, os livros de Paulo Freire eram proibidos do Brasil porque se acreditava que ele tinha ideias comunistas. O educador foi exilado e voltou ao País no início dos anos 80.

“Eles dizem que Paulo tinha doutrinação, mas nunca em todo seu caminhar histórico ele teve pretensões de doutrinar. A ideia de Paulo era formar cidadãos livres”. Hoje, muitas escolas públicas e privadas do País incluem em seus métodos pedagógicos as ideias de Freire, como desenvolver a visão crítica dos alunos e considerar a condição anterior do estudante no seu aprendizado.

 

 

 

 

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