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‘Bolsonaro e Ciro seriam retrocesso’, diz Ana Maria Diniz

Renata Cafardo

09 Agosto 2018 | 05h00

A empresária Ana Maria Diniz, de 57 anos, dedica atualmente 70% do seu tempo à campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) por acreditar que a educação vai ser considerada tão importante quanto a economia em um eventual governo tucano. “Pra valer o meu tempo, realmente tem que ser para transformar”, diz a filha mais velha de Abílio Diniz.

Desde que o marido, o cientista político Luiz Felipe d’Avila, assumiu a coordenação da campanha, ela diz que começou “a sonhar junto” o que poderia ser feito na educação. Depois de deixar o cargo de executiva do Pão de Açúcar, empresa da família, em 2003, Ana Maria passou a se dedicar à área. Foi uma das fundadoras do Movimento Todos pela Educação e hoje é a presidente do conselho do Instituto Península, braço social dos Diniz, que tem uma faculdade de formação de professores. Comprou ainda parte das ações do Ânima Educação, grupo que reúne 100 mil alunos em diversas instituições de ensino.

A casa onde morou por 19 anos, no Jardim Europa, foi emprestada para a campanha de Alckmin à Presidência e até o filho mais novo, João Luis, voltou do exterior este mês para morar novamente no Brasil. “A família está bem contaminada com a ideia de poder ajudar, fazer a diferença, até porque a gente vê um risco muito grande de um desses candidatos que estão mais fortes ganharem, como Bolsonaro e Ciro Gomes. Seria um enorme retrocesso no País.”

Na entrevista, ela reconhece ainda que a educação em São Paulo, sob comando do PSBD há mais de 20 anos, está estagnada e que poderia ser muito melhor. “A gente teve bons secretários, mas acho que a gente não quis quebrar o sistema.”

Por que a senhora resolveu se envolver na campanha eleitoral?

Faz anos que estou envolvida com educação de alguma forma, acabou se tornando a causa da minha vida. Quando o Felipe começou a coordenar a campanha, passei a sonhar junto. Nas minha conversas com o Geraldo, falo muito que todos os governantes sempre falaram que educação era importantíssima. Mas na hora de fazer as coisas, enfrentar as brigas, nunca têm coragem de mexer no status quo. Acho que ele está entendendo cada vez mais que investir nesse capital humano pode transformar o Brasil. O Pérsio (Arida, responsável pelo programa de economia) ajuda muito nessa conversa.

Acha que a educação é uma parte importante do programa de governo e vai haver dinheiro para a área?

Há milhares de programas no Ministério da Educação hoje que não tem eficiência nenhuma e a gente vai ter a sabedoria pra fazer cortes. Sinceramente, não é dinheiro que falta na educação, é gestão. Além disso, o Pérsio é o primeiro a falar de educação, isso me deixa muito segura que ela vai estar sendo considerada tão importante quanto economia. A área está sendo olhada não só como uma política social, mas como um meio para resolver a desigualdade e aumentar a produtividade do País.

A senhora parece animada, quando boa parte dos brasileiros está desacreditada.

Eu estou muito animada porque realmente acredito que o Geraldo está disposto a fazer a diferença e fazer as coisas certas. Pra valer o meu tempo, para valer essa dedicação de estar fazendo o programa, realmente tem que ser para transformar e ele está super a fim, então vamos lá.

Na educação, o que seria essa transformação?

Eu e uma equipe de especialistas pensamos em quatro pilares: alfabetização para todas as crianças até o 2º ano, cuidar da primeira infância de forma ampla, ensino médio conectado com mercado de trabalho e valorização do professor. Geraldo entende a importância de cuidar dos pequenininhos e não é só creche. Precisa ampliar o número de creches, mas isso é muito importante nos grandes centros. Em outros municípios, você precisa educar as pessoas que vão cuidar das crianças, sejam elas avó, tia, mãe. Você fazer núcleos de formação para quem vai cuidar da criança é muito mais importante do que ter a estrutura física com o brinquedo ideal e a parede ideal.

Ana Maria coordena o programa de educação da campanha tucana à Presidência. FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Mas existe recomendação de formação superior para quem trabalha com educação infantil.

Acho que não tem necessidade, isso é um enorme limitador, o importante é fazer trabalhar junto a assistência social, saúde e educação, para o desenvolvimento da criança. Isso é muito mais importante do que ter ensino superior desse cuidador.

E qual o plano para valorização do professor no Brasil, que tem salários baixos, má formação e desestímulo?

É importante que essa carreira se torne uma carreira desejada pelos jovens. Eu conheço professores incríveis, que os alunos amam, que ganham exatamente a mesmo coisa que outros que faltam 30% do tempo, que não têm compromisso nenhum. Precisa haver diferenciação.

O PSDB implantou em São Paulo em 2008 uma política de bônus para professor ligada ao desempenho dos alunos, mas não teve bom resultado.

O bônus não foi bem sucedido mesmo. Do jeito que ele foi desenhado não foi o ideal, acho que foi a versão 0.1. Temos que evoluir nisso, mas são coisas que estamos estudando ainda.

São Paulo também tem outros problemas de qualidade na educação, com Ideb igual ao de Pernambuco. Por que Geraldo Alckmin conseguiria fazer no governo federal o que não fez no Estado?

Acho muito diferente estar na perspectiva nacional e na estadual. É muito difícil fazer uma revolução estadual se não tem o respaldo de uma diretriz nacional. Mas você tem razão, acho que São Paulo poderia ter evoluído melhor e mais rápido, está estagnado. Ele mesmo, Geraldo, diz que vem vivendo e aprendendo. Não acho que a educação de São Paulo seja a ideal, mas nos três ciclos é a melhor que a gente tem. Sinceramente, a gente teve bons secretários, mas acho que a gente não quis quebrar o sistema, o que precisa fazer agora é criar um sistema novo para funcionar melhor.

Sua família está também envolvida e animada?

A família está bem contaminada com a ideia de poder ajudar, fazer a diferença, até porque a gente vê um risco muito grande de um desses candidatos que estão mais fortes ganharem, como Bolsonaro e Ciro Gomes. Seria um enorme retrocesso no país e a gente não quer deixar isso acontecer

E o Lula?

Acho que o Lula não vai ser candidato. O Fernando Haddad é um homem bastante razoável, que eu respeito, mas ele está dentro de um partido que não respeito e que não acredito que vá levar o País para um bom caminho

O Centrão pode influenciar no programa de educação que estão montando?

Eu até agora não vi nenhum ruído por aí, estou acreditado que não, vamos ver.

A senhora é proprietária de faculdades, não há conflito de interesses ao estar pensando programas para o MEC?

Não. Nossa participação no Ânina é de 6% e não é nosso foco principal na Península. Além disso, nosso investimento social em educação mostra o comprometimento com a causa há anos.

A senhora aceitaria ser ministra da educação?

Não sei se sou a melhor pessoa para ser ministra, não tenho essa pegada política. Mas se todo mundo disser lá na frente que vai ser bom, que vou conseguir transformar muito, eu vou. Hoje eu não estou totalmente convencida, eu sou muito transparente, falo tudo que está na minha cabeça e não é a melhor coisa para quem está na cadeira de ministra.