Um peão no tabuleiro

Dora Kramer

13 de julho de 2016 | 12h31

É preciso partir do princípio de que as raposas do PMDB instaladas no Palácio do Planalto sejam fruto de uma ninhada desvirtuada, por ingênua, da espécie, para concluir que a candidatura de Marcelo Castro (PMDB-PI) à presidência da Câmara tenha posto o governo em situação de xeque-mate.

O lançamento do nome de Castro embaralhou o jogo, mas quem disse que isso não interessa ao Planalto? A candidatura dele teve três efeitos imediatos: amarrou os votos do PT, tirou apoios de Rodrigo Maia (DEM-RJ) e forneceu ao governo o argumento perfeito para “demonstrar” sua não interferência na disputa; o álibi ideal para esconder sua preferência por Rogério Rosso (PSD-DF).  Se a jogada dará certo são outros quinhentos. Mas, se não der e Rosso ainda assim perder, o Planalto não será sócio oficial da derrota e ainda terá um pemedebista na presidência, mantendo o controle do Congresso nas mãos do partido. Se por acaso o vencedor for Rodrigo Maia, ótimo também. É do DEM, aliado da primeira à última hora.

Ah, mas Marcelo Castro foi ministro de Dilma Rousseff, alega-se. Ele e mais uma boa quantidade de pemedebistas. Ah, mas ficou contra o impeachment. Ele e Leonardo Picciani (PMDB-RJ), hoje ministro, e Jader Barbalho (PMDB-PA), cujo filho segue com cadeira no ministério Temer. Ah, mas ele contrariou a orientação do partido e não se demitiu do governo Dilma. Qual teria sido a razão? Conversão petista é que não foi, dada sua trajetória política sempre distante do PT. Já esteve, inclusive, no PSDB. Marcelo Castro não saiu simplesmente por que não queria deixar de ser ministro quando a situação era incerta.

Tivesse ele se bandeado de lado, teria sinalizado mudança de partido. Não seria agora que a legenda à qual é filiado chegou à Presidência da República que formaria fileiras ao lado de uma presidente afastada, em via de sê-lo de maneira definitiva.

Fosse outro seu estilo, poder-se-ia (para fazer jus ao estilo) dizer que estaria dando boas risadas. Não, mas um circunspecto sorriso não lhe deve escapar à face. Afinal, qualquer que seja o resultado terá passado pela eleição da Câmara sem brigar com ninguém. As análises de que o grupo palaciano levou “uma volta” não condiz com a limonada que esse pessoal fez a partir dos limões semeados pelo PT e cultivados com carinho por Dilma e companhia.

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