CPI da Covid: Witzel se faz de vítima e abre jogos políticos da comissão

Mário Scheffer

16 de junho de 2021 | 18h09

O espectador inadvertido que sintonizasse a TV Senado na manhã desta quarta-feira, mudaria de canal sem entender por que, no lugar da CPI da Covid, eram transmitidas imagens da tribuna de defesa de um ex-governador impichado por corrupção.

Wilson Witzel foi o show da cerimônia de abertura dos jogos políticos organizados pela cúpula da CPI.

Esqueçam o imperativo da racionalidade, esqueçam a urgência da situação sanitária que pressagia um resto de ano tenebroso para o povo brasileiro.

O vitimismo de Witzel criou uma cacofonia interpretativa, pois ora “a pandemia é a pedra de toque de uma série de atos de perseguição” contra ele e governadores, ora seu impeachment “foi financiado por essas OSs (organizações sociais)”. Até Marielle Franco teve sua memória violada, em socorro à autodefesa do ex-magistrado, que externou na CPI: “corro risco de vida” e “combati duramente as milícias”.

Instantes depois, redes sociais resgataram a foto famosa do então candidato Witzel, ao lado dos responsáveis por quebrar a placa com o nome da vereadora covardemente assassinada.

A sessão serviu também aos propósitos de um “barraco” roteirizado, que fez a plateia lembrar de quanto Witzel é odiado e considerado, pelo clã Bolsonaro que o fez governador, um ingrato traidor.

Porém, a consonância de senadores com a autocomiseração do ex-governador põe a CPI numa rota vacilante que poderá descambar em descrédito.

Witzel encestou uma bola lançada pelo senador da oposição, sobre a falta de investimentos federais em hospitais do Rio de Janeiro, o que muito contribui, mas não explica totalmente, com a triste marca atual de 53.476 óbitos por Covid no Estado.

Agora que a CPI “estadualizou”, não há como ignorar uma parte maior da história toda.

O Rio de Janeiro que conhecemos nasceu como porto e fortificação militar, se modernizou ao sediar empresas financeiras, tornou-se centro cultural e referência internacional. Contudo, a transferência da capital federal para Brasília, o regime militar que amputou a liderança do Estado nos debates nacionais, a queda dos preços do petróleo e, mais recentemente, os megaeventos que deixaram a capital endividada, combaliram gravemente o Estado.

A decadência salvaguardou as instituições científicas do Rio de Janeiro, mas a concentração de tradicionais centros federais de pesquisa e de hospitais públicos de grande porte é inversamente proporcional ao desempenho sofrível de um sistema de saúde corrompido por reiterados desvios.

Superexposto a uma epidemia de origem viral, o Rio tem ainda grande proporção de desempregados e de idosos e parte expressiva de sua população vive em favelas e em contextos de vulnerabilidade social extrema.

Foi nas gestões de Sérgio Cabral, que se gabava de alianças com o governo federal, que um de seus secretários, Sérgio Côrtes, inovou ao promover organizações sociais domésticas, sob encomenda para gerir serviços de saúde. E que teriam se tornado algozes de Witzel, numa das versões que o ex-governador vendeu à CPI.

O fato, narrado em inquéritos, é que Witzel e seu secretário de saúde não resistiram à herança bendita. Usaram a pandemia para seguir a trilha de novos serviços de saúde, deixando os antigos sucateados. A cada obra, muita propaganda e corrupção, e nada de expansão efetiva do SUS.

Ao abandonar a sessão da CPI antes do fim, direito que lhe foi concedido pelo STF, Witzel não revelou novos “fatos graves” que diz conhecer. Mas, ao oferecer uma explicação para sua intrigante opção por hospitais de campanha na pandemia, ao enfatizar que a rede federal de hospitais do Rio de Janeiro “tem dono”, e ao sugerir investigar as OSs e as empresas por elas contratadas, Witzel propôs um atalho à CPI: basta ligar os pontos entre empresários e políticos que se chega até os culpados.

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