Silêncio de Wizard e novas denúncias atropelam a CPI da Covid

Silêncio de Wizard e novas denúncias atropelam a CPI da Covid

Mário Scheffer

30 de junho de 2021 | 18h52

Determinado a permanecer em silêncio na CPI, com autorização do STF, o empresário Carlos Wizard embargou a expectativa da audiência.

Não é demasiado perceber a errância da CPI, refém de uma agenda antiga, mas com aspirações de surfar nos novos indícios de corrupção escalados pela mídia.

O depoente mudo, caso falasse, denunciaria a extemporânea pergunta do senador: “o senhor participou do gabinete paralelo?”

O relator da CPI, prevendo a inutilidade da sessão que seguiria, dirigiu, durante entrevista, palavras ácidas ao ministro da Saúde (“Queiroga é um Pazuello de jaleco”) e ao presidente do Senado (“Rodrigo Pacheco quer paralisar os trabalhos da CPI”). O cancelamento do contrato da Covaxin pelo Ministério da Saúde, as novas denúncias que vieram à tona, a recusa da PGR em denunciar Bolsonaro por prevaricação, a posição de Pacheco a favor do recesso parlamentar (e contra a prorrogação do inquérito) e o superpedido de impeachment protocolado pela oposição atropelaram a CPI, já engarrafada em intermitências.

Wizard era esperado primeiro porque sua história desperta certa empatia ou curiosidade popular. Mais velho de sete irmãos, o filho de caixeiro-viajante no interior do Paraná, que homenageou o pai na CPI e que aprendeu inglês com missionários cristãos, comandou uma rede de ensino de idiomas antes de seu nome entrar para as listas de bilionários.

Homens de negócio

No afluxo de empresários outsiders das fileiras bolsonaristas, com passe livre aos salões palacianos, Wizard se apresentou inicialmente na CPI como patriótico: “minha disposição é a de servir o País combatendo a pandemia e salvar vidas”. Mais tarde, em vídeo exibido pela comissão, surgiu voluntarista: “a missão que o general (Pazuello) me passou foi acompanhar grandes contratos, confiando na minha habilidade negocial”.

Homens de negócios, principalmente dos serviços e do comércio, desde as eleições de 2018, foram atraídos pelos slogans populistas de extrema direita, pela polarização ideológica que simplifica o conflito de valores, pelas invectivas lançadas contra a política tradicional. Bolsonaro escolheu pessoalmente quem era o empresário amigo, o aliado potencial, ou, pelo contrário, o inimigo não confiável.

A presença inegável de empresários “periféricos” nos atuais jogos de influência não pode ser equiparada ao investimento político direto praticado desde sempre pelo empresariado industrial de grande porte. A aproximação desses “novos” empresários com a política tem a ver com vaidades e benefícios pessoais que esperam, não segue a lógica da defesa de interesses econômicos unificados.

No breve período em que flertou com um cargo não assumido no Ministério da Saúde, Wizard defendeu recontagem dos mortos por covid, insinuou que governadores inflavam dados da pandemia para obter mais recursos federais e anunciou que o Brasil seria “forrado” de cloroquina.

Primeiro rechaçou as medidas de bloqueio da transmissão do vírus, mas depois se posicionou rapidamente a favor da vacinação como atalho para o retorno das suas e das demais atividades econômicas.

De posse da senha de acesso, ao lado de Luciano Hang, dono da Havan, liderou maratona para a flexibilização das regras sanitárias de aprovação de vacinas contra a covid e a liberação da compra de imunizantes pelo setor privado.

Fizeram pressão na Anvisa, no Congresso Nacional, nos Ministérios da Saúde e da Economia e, claro, no Palácio do Planalto. Ao fim, não conseguiram vacinar seus empregados na frente, não doaram as vacinas prometidas para o SUS e foram duramente criticados por empresários graúdos que apelidaram a empreitada de “fura-fila”.

Há uma série de acontecimentos que podem estar interligados: a conversão de ex-militantes da imunidade de rebanho e do tratamento precoce em entusiastas da vacinação; a tramitação expressa, no Senado e na Câmara, do projeto que pavimentou a calçada de intermediadores privados de vacinas; a súbita celeridade do Ministério da Saúde nas compras de imunizantes; a excursão de empresários à Índia para antecipar encomenda; o bizarro pagamento de boleto empresarial pelos cofres públicos e a denúncia de propina de US$ 1 por dose a ser adquirida pelo governo.

São essas as peças do dominó que precisam ser enfileiradas pela CPI.

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