Sexismo, futebol e ‘vacina aleatória’ agitam CPI

Mário Scheffer

01 de junho de 2021 | 18h36

A voz “calma e tranquila” da doutora Nise Yamaguchi, na descrição do presidente da CPI, seria o ardil de uma depoente que “convence as pessoas como se estivesse falando a verdade”. Interrupções de senadores – “não fique ‘rodeando o toco’, não perguntamos sobre isso, não queremos sua aula, sua condição aqui não é a de perita” – produziram material para memes instantâneos na web, mas também ressaltaram o sexismo onipresente numa CPI que não conta com nenhuma senadora em sua composição formal.

Antes da controversa participação da detratora da vacinação “desnecessária” e “aleatória”, senadores sentaram-se à bancada para tratar sobre futebol. O anúncio da Copa América a ser possivelmente disputada no Brasil polarizou. Para o senador da oposição, há um problema com o “campeonato ridículo, que não tem qualquer valor para nossa tradição futebolística”. Para o senador governista, o evento seria a solução para gerar emprego, turismo e “imunidade”. Sim, insinuou-se que a “autoestima do futebol, a alegria” pode tornar pessoas imunes ao Sars-CoV-2. Que nos acuda Nelson Rodrigues, intérprete do Brasil e do futebol.

Doutora Nise é oncologista clínica reconhecida e guarda a afeição de incontáveis pacientes com câncer e seus familiares, por ela assistidos ou amparados. Mas sua receita heterodoxa para combater a pandemia (o “tratamento imediato” com cloroquina) e sua intimidade com desatinos de Bolsonaro (a imunidade de um rebanho solto e sem vacina), deixaram, após a oitiva, uma longa fila de chocados para trás.

Para proteger o presidente, além de negar as comprováveis reuniões nas quais esteve no Palácio do Planalto, a médica asseverou sua condição de “colaboradora eventual”, sua trajetória acadêmica e técnica e seu trânsito suprapartidário. Fez menções premeditadas a “Solla, na Bahia” (hoje, Deputado Federal Jorge Solla, PT-BA), com quem teria tido em comum o tema das “parcerias público-privadas”, e com o ex-ministro e atual deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP), com quem teria trabalhado “durante um ano”. No seu currículo Lattes, na Internet, ela acrescenta que “foi Representante do Ministro da Saúde para o Estado de São Paulo entre 2008-2011”, período do governo Lula no qual José Gomes Temporão esteva à frente da pasta.

O relator da CPI estreou sua tese, ainda abstrata, sobre o “gabinete paralelo” que Bolsonaro teria montado para fabular coisas sobre a pandemia. A mais comentada quase decisão desse gabinete – que, segundo o relator, seria frequentado por Nise, Carlos Bolsonaro, Osmar Terra, Arthur Weintraub, Luciano Azevedo e Carlos Wizard – foi a intenção de turbinar a bula da cloroquina.

Não devemos subestimar o papel de médicos que cochicham nos ouvidos do poder. Essa figura sempre existiu, a de médicos confidentes de dirigentes políticos, conselheiros oficiosos muito ouvidos em certas escolhas de políticas de saúde. Muito se comenta que vários nomes do alto escalão, de diretores de agências reguladoras a ministros, teriam sido escolhidos nos corredores de hospitais de elite de São Paulo, que já atenderam, como pacientes, o atual presidente e todos os seus antecessores. Na aspiração por poder e glória, a mosca azul costuma picar alguns desses médicos famosos, que sonham com o ministério.

Sob o princípio das profecias autorrealizáveis, Bolsonaro acrescentou, com a covid-19, a necessidade de ser ladeado por pessoas que validassem suas opiniões tão discricionárias quanto obscuras e suas decisões tão autoritárias quanto injustificadas. Bolsonaro ganhou consultores. Mas doutora Nise não se tornou ministra.

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