Sessões intermináveis esgotam paciência da audiência ansiosa por resultados da CPI

Sessões intermináveis esgotam paciência da audiência ansiosa por resultados da CPI

Mário Scheffer

15 de junho de 2021 | 18h33

Marcellus Campêlo, ex-secretário de saúde do Amazonas, depõe na CPI – FOTO: Gabriela Biló/Estadão

“O senhor vai passar o dia inteiro aqui e várias vezes vai repetir a mesma coisa”, praguejou o presidente da CPI à testemunha da vez, o ex-secretário de Saúde do Estado do Amazonas, Marcellus Campêlo.

Há sete semanas, a apatia de algumas sessões intermináveis da CPI, recheadas de arguições repetitivas e pouco preparadas, esgotam a paciência da audiência ansiosa por resultados.

Logo no início do depoimento do primeiro convocado da controversa fase estadual da CPI, foi lembrada a morte da farmacêutica e epidemiologista Rosemary Costa Pinto, por complicações da covid, em Manaus. A perda da incansável servidora pública que atuava no combate à epidemia devia inspirar a CPI na apuração da negligência que sacrificou tantos profissionais da saúde. A homenagem a heróis que perderam a vida não é suficiente, é preciso caracterizar a ausência de políticas e a descoordenação por trás das péssimas condições de trabalho, da falta de proteção e dos riscos à saúde física e mental, principalmente de quem tombou nas linhas de frente dos serviços de saúde.

Campêlo foi ao Senado responder pelo “colapso da saúde no Estado do Amazonas”, uma das seis linhas gerais de investigação do plano de trabalho da CPI.

A inépcia e o estrago causado na gestão da pandemia por quem não é do ramo da saúde pública – o ex-secretário é engenheiro civil – já havia dominado debates quando depuseram na CPI militares do Ministério da Saúde.

O distanciamento social titubeante e o surgimento de uma variante mais transmissível do vírus formaram as duas ondas epidêmicas de crescimento exponencial que arrebataram Manaus, uma no início e outra no final de 2020.

Chocaram o mundo os corpos asfixiados em vida e depois enterrados nas “trincheiras”, o nome que a prefeitura da capital deu às covas enfileiradas. Barbarizaram o Amazonas aqueles que ofereceram cloroquina a quem suplicava oxigênio, e os que reanimaram empresários locais enquanto o SUS colapsava. Espera-se que sejam todos candidatos a indiciados da CPI.

Amazonas se destaca entre os Estados com maior projeção de crescimento econômico, mas tem índice de mortalidade infantil muito acima da média nacional. Em 2021, São Paulo tem 5,4 leitos de UTI 10 mil habitantes e, o Amazonas, apenas 3,6. Há décadas a população amazonense é vítima de descaso e enganação.

Garantir o direito à saúde em áreas territoriais extensas, habitadas por povos originários e com fluxos migratórios permanentes requer financiamentos estáveis e políticas cumulativas que não existiram.

O dono de um grupo empresarial que leva o nome da família, que acumula universidade, curso de medicina e hospital privados, cujas filhas médicas furaram a fila de vacina, recebeu a tiros a polícia federal no dia em que foi preso por suposto desvio de recursos em contrato com o governo estadual para erguer um hospital de campanha. Parece exótico, como a pororoca da Foz do Amazonas, mas essa crônica policial da epidemia de Covid em Manaus é um clichê da sobreposição entre interesses privados e a administração pública, revelador do que há de comum e pior na política brasileira.

Comentados na CPI , os valores pagos a mais em compras ou desviados em contratações, tecla dos governistas, e a dificuldade logística de levar insumos até Manaus, uma das desculpas da fabricante de oxigênio, não são mais do que evidências auxiliares.

Milton Santos, em seus escritos monumentais, afirmava que o território é imutável em seus limites, mas em um dado momento ele se torna espaço, a sucessão histórica resultado da ação de um povo. Não é adequado, ensinava o geógrafo, reduzir o problema do espaço às categorias de distância e preço, condená-lo a ser bidimensional, pois é preciso considerar outros elementos, os homens, as instituições, as empresas, as estruturas. Eis aí, para a CPI, um roteiro superior.

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