CPI da Covid mantém roteiro paralelo e longe do público

Mário Scheffer

18 de junho de 2021 | 19h01

O que se pode fazer quando senadores dão sinais de que a CPI não tem mais nada para fazer? Ao permitir a presença de dois defensores do tratamento precoce, abusam da boa vontade de quem tirou do traço a audiência da TV Senado e de quem corria ao Twitter para badalar a comissão.

A adesão popular à CPI só funcionou porque há gente suficiente disposta a deixar de lado o que sente e o que sabe sobre verões passados do Parlamento, em troca de algum lugar para ancorar a esperança ou mesmo espiar uma desejada vingança.

Largados ali sozinhos com senadores governistas, os convidados extemporâneos, mesmo sem querer, nos fizeram lembrar que, à medida que avança a vacinação, o tratamento precoce ganha a sua devida condição e lugar, vira um delírio do passado.

Restam mais que evidentes a imprudência de quem receitou as drogas em questão e o crime cometido por quem transformou em política deliberada o tratamento impensável. A essa altura, com o uso de tais remédios para covid banido no mundo inteiro, a simulação do equilíbrio falso, a decisão de pautar num dia uma opinião contra, no outro, uma a favor, sugere que há senadores que estão sendo enrolados ou estão querendo enrolar alguém.

Nesta semana, num ziguezague de temas, a CPI focou no Amazonas e no Rio de Janeiro, teve de cancelar sessão de informantes-chave e voltou à cloroquina.

O relator, pela primeira vez, nem quis arguir depoentes, e fora dali fez divulgar que já tem em mãos indícios de crimes, ao anunciar que 14 pessoas, quase todas ligadas a Bolsonaro, passarão agora à posição de investigados pela comissão de inquérito.

Assuntos esgotados

Se a intenção for investir em nova fase da CPI, e não em um roteiro paralelo longe do público, o melhor a fazer é desapegar de assuntos esgotados.

Este Blog contou: em 23 reuniões foram repetidas 1.629 vezes as palavras “cloroquina” ou “tratamento precoce”. O assunto foi motivo de 68 requerimentos da CPI que geraram 58 documentos já entregues.

Já se sabe que a promoção da cloroquina era um dos assuntos preferidos do gabinete paralelo, onde a fabricação da dúvida sobre vacinas boicotava ações preventivas.

Viu-se que a cloroquina virou tara nacional, tingiu de discórdia entidades médicas, rachou o Judiciário e o Ministério Público e fez até um grupo de artistas famosos entrar na batalha dos mil e um manifestos virtuais, chamando para a briga uma messiânica associação bolsonarista de médicos.

O “Kit-covid” foi distribuído em sistema de delivery por prefeituras, por empresas de ônibus para seus empregados, e até por grandes planos de saúde privados para seus clientes. Covardes ameaçaram de morte pesquisadores sérios e as Forças Armadas se desgastaram ainda mais na pandemia, pois um documento na CPI aponta para a produção de quantidade inexplicável de cloroquina pelo Laboratório Químico Farmacêutico do Exército.

Vieram à tona o oportunismo e transações de empresários da indústria farmacêutica e de redes de varejo, que lucraram com a venda irresponsável de hidroxicloroquina e ivermectina.

Fica ainda a lição do quanto a pesquisa científica apressada, desleixada, sem garantias suficientes de validade, quando manipulada por interesses políticos, pode ter péssimas repercussões. E do quanto a demarcação entre ciência, política, opinião e ideologia, antes uma questão filosófica, agora é também um problema social.

A overdose do assunto na CPI contribuiu para trazer à luz a cloroquina sob vários ângulos, mas consumiu um tempo incompatível com a urgência da pandemia. A não ser que existam cartas na manga, na curta vida que lhe sobra, a comissão precisa provar que ainda não jogou a toalha.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.