CPI da Covid: senadores se deixam levar pela repetição que esconde jogos políticos

Mário Scheffer

30 de junho de 2021 | 09h17

Tingido de meias-tintas, buscando acantonar-se entre a afinidade e o atrito, o procurador-geral da República pretende se posicionar sobre possíveis crimes de Bolsonaro somente ao final da CPI. Foi o que Augusto Aras sugeriu em resposta à ministra Rosa Weber, ao receber do STF a ação avulsa impetrada por senadores que acusam o presidente de prevaricação no caso da Covaxin.

O tempo a mais da PGR coincide com o surgimento de novas denúncias de oferta de propinas para a aquisição de vacinas, e com a chamativa decisão do Ministério da Saúde de suspender o contrato com a Precisa Medicamentos.

Enquanto isso, na CPI, o depoimento do deputado estadual Fausto Junior (MDB), relator de uma comissão de inquérito conclusa da Assembleia Legislativa do Amazonas, integrou o conjunto de pequenas concessões do chamado G7, o grupo de senadores que comanda a CPI da Covid. A convocação do parlamentar atende a requerimento de um dos senadores governistas.

Fora o objetivo maior de apurar as omissões do governo Bolsonaro, a CPI federal se propôs originalmente a responder por que no Amazonas a população sofreu efeitos ainda mais devastadores da covid do que no restante do País. Elementos probatórios e confirmações saltaram das incontáveis horas de falas já dedicadas à tragédia de Manaus, mas os senadores se deixam constantemente levar pela repetição que esconde jogos políticos.

A base do governo ainda não desistiu de ampliar o escopo das investigações da CPI para os “fatos conexos”, relacionados ao uso indevido de recursos transferidos pela União para ações de Estados e Municípios. A presença de Fausto Junior também serviria, neste momento, a três propósitos:
1) desviar o foco do escândalo da Covaxin para a corrupção paroquial, a exemplo dos ventiladores pulmonares adquiridos pelo governo do Amazonas por intermédio de uma loja de vinhos, história contada pelo depoente;
2) transformar o descontrole da pandemia, um crime de saúde pública, em mero caso de polícia, como fez o relatório do deputado, cujo principal desfecho foi uma operação da PF no Amazonas que prendeu pequenos predadores do erário público;
3) demonstrar que comandantes do Executivo não são indiciáveis, pois o governador do Amazonas, Wilson Lima, foi isentado pelo relatório da CPI estadual de qualquer responsabilidade pela crise do oxigênio e pelas mais de 32 mil mortes por covid no Estado.

Inútil
O depoimento não teve nenhuma serventia.
Até porque já esteve na CPI o ex-secretário de Saúde do Amazonas, Marcellus Campêlo, que, pela incompetência e desmandos testemunhados, acusara de culpa o seu superior, Wilson Lima, só liberto da convocação dos senadores por decisão do STF.

Além disso, Fausto Junior é um clichê do funcionamento dos legislativos dominados pelo poder dos governadores, que, em geral, formam sólida maioria nas Assembleias, por meio de distribuição de cargos, secretarias e emendas parlamentares. Logo depois da CPI estadual que relatou, o deputado migrou do PRTB para o MDB, passando a integrar a base aliada do governador Wilson Lima.

Na CPI, Fausto entrou na condição de convidado e saiu como acusado, pois o presidente da comissão insinuou benefícios recebidos pelo deputado estadual em troca do não indiciamento do governador.

Dois ex-governadores do Amazonas, hoje senadores e arguidores, não mencionaram as imensas fragilidades do SUS do Amazonas desde suas gestões, e preferiram atribuir ao atual mandatário o ônus total do fracasso na resposta à pandemia.

Por tudo que já se ouviu sobre os piores efeitos da pandemia em Manaus, a CPI mimetiza o dilema da transamazônica. Símbolo da derrocada dos planos de integração do País, a BR-319, inaugurada em 1976, cortaria a floresta preservada e faria a ligação de 885 km entre Manaus e Porto Velho. Como as demais promessas de desenvolvimento econômico e social no Estado, incluindo um sistema público de saúde qualidade, a estrada viu a luz por pouco tempo e terminou soterrada pela corrupção.

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