Pazuello na CPI: a burlesca calculadora de diagnóstico

Pazuello na CPI: a burlesca calculadora de diagnóstico

Mário Scheffer

20 de maio de 2021 | 17h22

Bate-bocas para aquietar acusações e bajulações ao governo federal temperadas de ironia tumultuaram o início da retomada do depoimento de Eduardo Pazuello na CPI.

A sessão entrou em áreas turvas de discussão, mas foi bem-sucedida em gravar na mente da plateia uma imagem peculiar: o Brasil, durante a maior parte da pandemia, teve um ministro da Saúde que nada sabia sobre a natureza do vírus Sars-CoV-2, causador da covid-19. Pior: era alguém que ignorava o modo de funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS), que existe há mais de trinta anos.

Militares conhecem pouco o SUS porque são atendidos em serviços de saúde exclusivos para as Forças Armadas, nos quais a população não entra nem mesmo quando há colapso de hospitais da rede pública.

A noção de Pazuello para tripartite, termo legal que designa a gestão compartilhada do SUS entre União, Estados e municípios, é uma espécie de condomínio com cotas de um terço para cada parte. Referiu-se ao Ministério da Saúde como um “gabinete de ocupação”, um lugar burocrático de apresentação da tropa, mero recebedor de notícias e repassador de recursos. A reiteração da frase “deixei os caixas dos Estados abastecidos” é o salvo-conduto para não comprar vacinas ou para negar a intervenção federal durante a crise no Amazonas. Faltou inquirir mais sobre o tardio e conturbado deslocamento do Ministério da Saúde até Manaus. Não se sabe até hoje quem deu a ordem de transferir pacientes graves via aérea para outras cidades, alguns dos quais morreram logo após a chegada.

A CPI também tem seus momentos burlescos, como quando Pazuello explicou o funcionamento da invenção de sua equipe para promover a cloroquina , o “TrateCOV”, que ele chamou de “calculadora de diagnóstico” de covid: “o médico coloca os sintomas observados e, com fatores, números e pesos, ele vai sugerir o diagnóstico ali”.

Enfim, argumentos trôpegos colocaram o ex-ministro em posição de fazer com que poucos concordem com ele no que quer que seja. Tão cara para o presidente Bolsonaro, a nulidade subserviente da gestão de Pazuello é o maior indício de autoria a ser seguido até agora. Pena que arguições descuidadas e aleatórias passaram a comprometer na CPI uma apuração eficaz da tragédia sanitária.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.