Alvo de disputa entre Bolsonaro e Progressistas, Paulo Rebello foi poupado na CPI

Alvo de disputa entre Bolsonaro e Progressistas, Paulo Rebello foi poupado na CPI

Mário Scheffer

06 de outubro de 2021 | 19h50

A investigação de última hora, das omissões da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) na pandemia, se revelou um lance melancólico na semana derradeira da CPI da Covid.

Quem sintoniza a CPI desde o início, já no 64º episódio, percebe quando há mentiras em relatos, quando as falas ágeis, cheias de convicção, são traídas pela constrangedora aceleração das funções psíquicas, ou quando o media training da véspera foi mal apreendido pelo convocado.

O diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Paulo Rebello, em depoimento à CPI da Covid. Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Em depoimento na CPI, o presidente da ANS, Paulo Rebello, advogado e ex-chefe de gabinete de Ricardo Barros, foi beneficiado pela exiguidade do tempo até o relatório final, e pela brandura parlamentar, tão comum sempre que o assunto tratado são os planos de saúde privados.

Rebello preside uma agência pública com quase mil funcionários, responsável por mais de 700 operadoras que têm 48,3 milhões de clientes, com faturamento de R$ 223,4 bilhões em 2020.

Senadores da CPI adoram a alegoria da pena puxada, que traz junto a galinha até vir todo o galinheiro. Mas, na última sessão, preferiram se restringir à Prevent Senior.

Com longa carreira de assessorias políticas, o depoente terceirizou responsabilidades e centralizou inaptidões.

Disse que passou a investigar a Prevent quando soube do caso pela CPI, anunciou que, a partir de 14 de outubro, um diretor técnico nomeado pela agência irá acompanhar a operadora, mas advertiu que a indicação abusiva do “kit-covid” é da alçada de conselho de medicina, a fiscalização de hospitais é com a prefeitura e que a ANS não é o Ministério Público.

Nessa altura, a ação reguladora tardia da ANS quase que consistirá em passar a chave no cadeado.

Como a agência não atuou para evitar fraudes, uso incorreto de medicamentos e restrições de acesso a procedimentos, a sua função restou análoga à da operadora que deveria fiscalizar, aquela que fingia atender e deixava morrer.

Em maio, a CPI desnudou um almirante, presidente da Anvisa, que pouco sabia de vigilância sanitária.

Agora, a CPI expôs ao Brasil um personagem ainda mais desencaixado: o presidente de uma agência de saúde que, de saúde, nada entende.

É um fato extraordinariamente grave. Enquanto a covid matava e arruinava o País, a ANS era dirigida por alguém que não sabia a diferença entre testes para rastreamento e para diagnóstico, não via relevância na unificação de leitos públicos e privados, no monitoramento rigoroso do tempo de permanência em internação e da taxa de letalidade de pacientes assistidos em planos de saúde, questões que qualquer estudante dos nossos cursos de graduação da saúde saberiam priorizar.

Rebello lamentou o fato de que as informações da ANS “não são fidedignas”, manifestou “desconfiança” nas autodeclarações das operadoras e demonstrou total desprezo pelo conhecimento e pela ciência.

Procurou desqualificar as “perguntas do Estadão” e “do senhor da USP” ao se referir a questões publicadas no dia anterior por este Blog, incorporadas na arguição pelo relator da CPI, Renan Calheiros, que costuma dialogar com contribuições da universidade e da sociedade civil.

Entre evasivas e rodeios, o depoente chegou ao ponto em que o peso da estultice se cruza com a história natural.

Num raro momento de riso frouxo de integrantes da CPI, ele não soube responder por que Bolsonaro enviou mensagem ao Senado pedindo a retirada de sua indicação à agência e, mesmo assim, seu nome foi aprovado em sabatina orquestrada pelo Progressistas.

Paulo Rebello está para Ricardo Barros e para os planos de saúde, assim como Paulo Guedes está para a offshore em paraíso fiscal.

Tanto a saúde suplementar quanto o mercado financeiro têm imensas falhas no Brasil, que ocupa a dianteira da permissividade na atuação de suas instituições regulatórias.

Uma pessoa pode ocupar cargo executivo em um banco, ser nomeada diretor ou presidente do Banco Central e, assim mesmo, manter aplicações financeiras que são afetadas por políticas sobre as quais ela delibera.

Outra, exerce cargo de confiança de um parlamentar que virou ministro, é recompensada com o escalão superior de instituição responsável pela vida de milhões de brasileiros, onde, sujeito a influências da parte empresarial interessada, se omite durante a maior crise de saúde pública da história.

A porta giratória dos cargos do Ministério da Economia e do Banco Central costuma devolver seus frequentadores a postos relevantes no mercado financeiro.

As carreiras de diretores da ANS têm sido erráticas, há quem saia do outro lado e aqueles que, depois de ejetados, voltam ao périplo das assessorias parlamentares, reiniciando um destino de sombra.

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