Passar adiante a responsabilidade, o mau hábito na CPI da Covid

Mário Scheffer

07 de julho de 2021 | 20h48

Roberto Dias odiava Luis Paulo Dominghuetti que odiava Luis Miranda que odiava Ricardo Barros que não amava ninguém.

Antes de receber ordem de prisão na CPI da Covid por mentir sob juramento, Roberto Ferreira Dias negou ter cobrado propina para fechar a compra de vacinas, chamou Luiz Paulo Dominghetti de “picareta” e “aventureiro”, insinuou que Luis Miranda agiu por vingança ao ver “pretensões negociais e econômicas frustradas” e jurou que não é afilhado de Ricardo Barros, mas admitiu que chegou ao Ministério da Saúde indicado pelo ex-deputado e assessor da Casa Civil Abelardo Lupion, que não tinha entrado na história.

No equilíbrio instável entre autodefesa e delação, testemunhos que passam adiante a responsabilidade tornaram-se um mau hábito na CPI.

Senadores extraíram de Dias poucas revelações sobre o escândalo das vacinas. Repetindo Regina Célia, a fiscal de contratos que depôs na véspera, o ex-diretor de Logística atribuiu ao coronel Elcio Franco, secretário executivo da gestão de Pazuello, a palavra final “na negociação, preço e entrega de vacinas”.

A sessão teve momento singular, quando o depoente apresentou uma insólita definição de lobby incidental: “é comum, principalmente em Brasília, você vai em algum evento, em algum restaurante, você está à mesa, eventualmente juntamente com seu amigo tem alguém que tem algum tipo de relação com o ministério”.

Isso fez lembrar Goethe, a alegoria que converte o fenômeno em conceito.

Roberto Dias teria saído “para tomar um chope”. Do nada, surgiram seu futuro detrator, Dominghetti, ao lado do ex-colega de ministério, coronel Marcelo Blanco, negociando milhões de vacinas disponíveis.

Assim, mais a plateia é enrolada e nomes são arrolados, no que parece ser um rolo sem fim. Mas também vão sendo perfilados pelotões de fuzilamento de cofres públicos, em constante guerra entre eles.

Em todas as tratativas suspeitas denunciadas aparece sempre alguém da burocracia federal da Saúde, do primeiro ao quarto escalão. Em todas as transações investigadas, por trás de preços superfaturados, de US$ 15 ou mais por vacina, há sempre uma empresa “despachante”, ora a Davati, ora a Precisa ou, alçada agora à CPI, a Belcher Farmacêutica, sediada na Maringá de Ricardo Barros.

Aos servidores, empresários, corretores, militares e deputados implicados, se achegou até um reverendo evangélico, convocado pela CPI por negociar vacinas em nome do governo com aval do diretor de Imunização do Ministério da Saúde.

Dado que não há limites para associados, o clube do escárnio não para de crescer.

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