CPI da Covid: o motoboy Ivanildo será o novo motorista Eriberto ou o novo caseiro Francenildo?

CPI da Covid: o motoboy Ivanildo será o novo motorista Eriberto ou o novo caseiro Francenildo?

Mário Scheffer

25 de agosto de 2021 | 19h17

Depois de 120 dias de funcionamento e a poucas semanas do seu final, se confirmada a entrega do relatório anunciado para setembro, a sessão da CPI foi tomada por um otimismo beato.

Em demonstração superlativa dos efeitos da comissão, o relator, Renan Calheiros orgulhou-se: “graças à luz colocada pela CPI, o governo foi obrigado a mudar de conduta”.

Senador Randolfe Rodrigues exibe documento enquanto Roberto Pereira observa

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e o presidente da FIB Bank Roberto Pereira Ramos. Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo

Na conta do senador, o Brasil já estaria em dívida de gratidão, pois um filho do Presidente publicou foto tomando vacina, sites de notícias falsas apagarem postagens e contratos fraudulentos foram cancelados.

O vexame de não alcançar o prometimento é um defeito sobre o qual a CPI postula imunidade prévia.

O relator dobrou a aposta, garantiu que os brasileiros vão conhecer “o que aconteceu nos porões da gestão dessa crise”, e que serão revelados “os fatos e também os seus verdadeiros responsáveis”.

Os convidados da festa já estão chegando, mas a estrutura do buffet parece ainda incompleta.

Nos spoilers dados pelo relator nesta quarta-feira,  25, o “negacionismo criminoso” e as “empresas corruptas” devem receber especial atenção.

De última hora, para incrementar a demonstração de condutas negacionistas, um grupo de senadores acionou Alexandre de Moraes, pedindo ao ministro que compartilhe com a CPI informações do inquérito do STF sobre fake news.

Já no capítulo que será dedicado aos trambiqueiros das vacinas, tudo indica que alguns nós ainda estão atados. Por isso, a correria com novas rodadas de oitivas e acréscimo de mais três investigados, que perderam a condição de testemunhas: o ex-comprador de vacinas do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, o dono da Precisa, Francisco Maximiano, e o diretor da Belcher Farmacêutica, Emanuel Catori.

A meta da CPI , primeiro, é expor Bolsonaro e seus ministros da saúde e, depois, Ricardo Barros, que estariam, conforme alguns parlamentares vêm reiterando, no topo da cadeia alimentar do ecossistema que agravou a pandemia e facilitou a corrupção.

Qual seria, então, a relevância da última arguição, a de Roberto Pereira, diretor da empresa FIB Bank?

Ao fulanizar novamente a investigação, talvez a cúpula da CPI anteveja o reverso da expressão popular: vão-se os dedos, na guilhotina de Aras e Lira, mas ficam os anéis.

Uma das joias do relatório deve ser a sugestão de indiciamento de envolvidos no caso da Covaxin, desvio que será descrito em detalhes.

Nos rodapés da apuração mais peregrina da CPI, depois das intermediadoras, despachantes e facilitadores políticos, surgiu agora a figura do “fiador” de vacinas.

O negócio interrompido, de R$ 1,6 bilhão entre o governo federal e o laboratório indiano Baraht Biotech, previa uma garantia de mais de R$ 80 milhões.

Foi aí que entrou na trama a FIB Bank, que tem banco até no nome mas não é autorizada a agir como instituição financeira. De pronto, recebeu R$ 350 mil da Precisa Medicamentas para emitir uma carta de fiança singular, aceita pelo Ministério da Saúde.

Roberto Pereira não conseguiu explicar como uma empresa de pequeno porte, de poucos funcionários, teria capital social alegado de R$ 7,5 bilhões, com posse de imóveis “mais valorizados que o Palácio de Buckingham”, troça do presidente da CPÌ.

Nos atuais escândalos das vacinas, todos os caminhos levam a Roma. Entre documentos analisados e depoimentos tortuosos, senadores suspeitam que um advogado amigo de Ricardo Barros, líder do governo na Câmara, é sócio oculto da FIB Bank.

Caso os rodeios e suposições não se materializem em provas cabais, os grandes podem, mais uma vez, se safar.

Nesta última reunião pública da CPI foi aprovada a convocação do motoboy Ivanildo Gonçalves, que teria sacado mais de R$ 4 milhões para a chamuscada VTC Log, transportadora oficial de vacinas do governo federal.

O motorista Eriberto França, pivô do impeachment de Collor, transportava dinheiro enviado por PC Farias para pagar contas particulares do ex-presidente.

O caseiro Francenildo dos Santos Costa, depois de prestar depoimento na CPI dos Bingos, derrubou o então ministro Antonio Palocci.

No clássico filme italiano dos anos 1970, A Classe Operária Vai ao Paraíso, Ludovico Massa, o Lulu, após sofrer acidente de trabalho, passa a ver sua função de outra forma, a ter consciência de sua humanidade aviltada.

Pesadelos de políticos que quase sempre se dão bem no final, os Lulus do Brasil – Francenildo, Eriberto e, quem sabe agora, Ivanildo – , também na nossa história, não alcançam o paraíso.

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