Homofobia e movimento antivacina ganham palco na CPI

Homofobia e movimento antivacina ganham palco na CPI

Mário Scheffer

30 de setembro de 2021 | 17h56

Devemos admitir que a programação da CPI da Covid nesta semana não foi realmente feita para nos tranquilizar.

Já sabemos que os senadores da comissão estão com dificuldade de praticar o desapego diante da proximidade do fim de um reinado temporário e popular.

O senador Fabiano Contarato gesticula em direção a Otávio Fakhoury, que o observa

O senador Fabiano Contarato discursou sobre o comentário homofóbico feito pelo empresário Otávio Fakhoury, depoente da CPI da Covid desta quarta-feira. Foto: Gabriela Biló

Mas nem bem haviam terminado de varrer o palanque do comício de Luciano Hang do dia anterior, cederam o palco para Otávio Fakhoury, patrono de redes sociais e propulsor de manifestações bolsonaristas.

Foi uma péssima decisão espetacularizar as sessões finais com depoimentos que premiam a reversão de valores, que promovem a banalização da política.

De qualquer forma, a oitiva da vez ilustra o que se extrai do farto material reunido pela CPI, das investigações sobre o gabinete paralelo, da cooperação firmada com a CPMI das Fake News, do compartilhamento de dados do inquérito conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, da quebra dos sigilos fiscal e bancário de blogueiros e donos de sites.

Partiram dessas fontes tudo que os senadores usaram para confrontar a testemunha, mas a sessão foi tão improdutiva quanto o depoimento do tenente-coronel Hélcio Bruno, em agosto, do Instituto Força Brasil, do qual Fakhoury confirmou ser o vice-presidente.

No dia em que Hélcio esteve na CPI, o site do Força Brasil saiu do ar, está indisponível até hoje. Fakhoury não se fez de rogado, manteve ativo o portal Crítica Nacional, por ele financiado, segundo a CPI.

Entre bate-bocas e interrupções na CPI, navegar pela página foi um exercício elucidativo. Em destaque, junto ao link da transmissão da TV Senado, havia um manifesto contra o que seria uma “campanha de demonização e assassinato da reputação” de Otávio Fakhoury.

Em publicações bem recentes do site, de setembro, continuam atrás do “vírus chinês”, repercutem novas “provas” de que a China fez “alteração genética no coronavírus de morcego, para torná-lo mais infeccioso para seres humanos”.

Consideram que máscaras são ineficazes e “geram falsa sensação de segurança”. Detonam as vacinas e definem a vacinação como “um processo de experimentação em larga escala”. Querem derrubar medidas de saúde pública, como a obrigatoriedade de comprovante de imunização para a entrada em escolas, estabalecimentos e eventos.

No que parece ser uma espécie de ombudsman do bolsonarismo, reclamam do governo a defesa mais enfática do “uso de medicamentos reposicionados para tratamento da covid” e das “maiores manifestações democráticas da história do País”, como chamam os atos golpistas de 7 de Setembro.

Fakhoury apresentou-se na CPI como um conservador cristão que exige seu direito de opinião, inclusive para dizer que a Coronavac é um “lixo de vacina” ou para postar comentários covardes e homofóbicos contra Fabiano Contarato. O senador agredido respondeu com um discurso emocionante, que transbordou dignidade e altivez.

Esse é outro ponto comum da rede de ódio e mentiras que age para além da pandemia: invocam a liberdade de expressão, desde que seja em uma nova sociedade expurgada de democracia e de pessoas que desejam “cancelar”, como os gays.

Nota-se uma sinergia entre desejos mais amplos do bolsonarismo e a cruzada de Fakhoury anti-máscara, antivacina e “covidocética”, como são chamados, na Europa, os negacionistas da pandemia.

O site Crítica Nacional, além da defesa do depoente em tempo real e de desinformações sobre saúde pública, oferece “capacitação para fazer o embate político” contra “marxismo cultural” , “ideologia de gênero” e “globalismo”.

Essas expressões sem nexo, três fantasmas de estimação, se repetem em todas as mídias e veículos bolsonaristas. Foram inventadas para se opor às causas progressistas que tanto temem, como feminismo, movimentos antirracista e LGBTI+, em defesa dos direitos de povos indígenas, por terra e moradia, e contra o desmatamento.

Não bastasse a miscelânea conceitual, apresentada de maneira vulgar e caricatural, misturam também inimigos de diversas linhagens – de Lula à terceira via, de sites “comunistas” à “grande imprensa” – todos eles aliados em conspiração, planejando a derrubada do mito.

Nas frentes que apuram os crimes reunidos em torno de fake news, praticados livremente desde as eleições de 2018, vê-se de tudo, menos improviso.

Hang e Fakhoury, enquanto falavam na CPI, contavam com retaguarda investida em vários canais da internet. Em momento de crise, o aparato se volta para a reatividade militante, mas as máquinas estão ligadas sem parar na distorção da realidade, na intenção de enganar e atacar. Os motivos, o objeto, os destinatários e os procedimentos da mentira compõem uma técnica que visa substituir a informação pela ideologia.

Seja por meio de conteúdos falsos, ou mesmo reais, mas truncados ou manipulados, os fins são políticos e vêm assumindo alguma expressão partidária.

Hang subiu no palanque, nas barbas da CPI, e Fakhoury domina o diretório do PTB em São Paulo.

O relatório da CPI ou o inquérito do STF poderão levar ao indiciamento de patrocinadores de fake news e de campanhas antidemocráticas.

Além da pressão para que Legislativo e Judiciário cumpram o seu papel, a resposta precisará vir também de baixo, de iniciativas de cidadania e participação capazes de responder aos extremistas no seu próprio terreno, onde eles hoje são influentes, nas ruas e na internet.

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