CPI começa a girar em falso

Mário Scheffer

08 de junho de 2021 | 18h56

Ao tentar retornar a pontos de partida, a CPI começa a girar em falso. Justificado pelo relator da comissão como “inevitável”, após um primeiro depoimento “evasivo, repleto de omissões”, o retorno do ministro da Saúde não entregou o catálogo prometido de revelações.

Um bate-boca entre inquiridor e inquirido ainda puxou a sessão da CPI para o lado da vulgaridade, naquela hora em que a tolerância a pensamentos divergentes no interior do Parlamento, atributo da democracia mais elevada, evapora.

Porta-voz de suas contradições, o ministro não recomenda hidroxicloroquina, mas decide por sua conta manter auxiliares promotores do tratamento precoce e demitir uma infectologista contrária a essa política. O que o faz aprovar a Copa América no Brasil e as aglomerações sem máscara do presidente da República? Talvez o fato de não ter “carta branca”, como afirmou, mas também pouco ajuda sua visão de que “ o cuidado é individual e o benefício é coletivo”, ignorando que em saúde pública não é apenas o comportamento das pessoas, mas também os fatores sociais e o mau exemplo da política que determinam a exposição a riscos e o adoecimento da população.

Marcelo Queiroga não foi incomodado sobre desanimadora constatação. Seguem sem respostas 76 requerimentos da CPI dirigidos ao Ministério da Saúde, a maior parte aprovada há mais de um mês. Apenas quatro pedidos de informações foram integralmente atendidos pela pasta, um deles em dobradinha com senadores governistas, sobre recursos federais repassados a Estados e municípios. Mais próxima do fim do que do início, tudo indica que a CPI jogou ao mar peças que poderão fazer falta no quebra-cabeça da responsabilização do governo federal, como a insuficiência de leitos, de equipamentos de proteção individual, oxigênio, respiradores, testes e outras providências negligenciadas, que exigiriam cruzamentos das oitivas com documentos ainda não remetidos à comissão.

O ministério que deveria ser o coordenador de ações imediatas para reduzir o número de mortes, testar mais, garantir o uso de máscaras de boa qualidade e expandir a rede pública de saúde tornou-se assunto menor da CPI.

Sob as luzes, fulgurou um ministro embarcado no trem para 2022, para quem a vacinação anda sozinha em 2021. Jamais uma solução emergencial foi buscada com tão pouco entusiasmo. Queiroga não se abalou ao comentar que apenas 14% da população acima de 18 anos está, em junho, imunizada com duas doses de vacinas; ou ao anunciar vacinação para todos até o fim do ano, profecia incompatível com a mixaria das entregas previstas. Já para o ano que vem, perto das eleições, o ministro antevê muitas compras, produção nacional a todo vapor e vacinas até para adolescentes.

Aceitar o papel de coadjuvante no presente e permitir a contaminação entre vacina e eleição no futuro pode ser um cálculo político. Enquanto a covid-19 mata à solta, o ministério da Saúde se tornou um espaço vazio de poder para controlar a pandemia, mas já produziu a pré-candidatura de Mandetta. Quem viver verá o que pretende Queiroga em 2022.

Redes apoiadoras de Bolsonaro e contrárias à CPI reclamam que senadores submetem testemunhas governistas a constrangimentos. Desagravada devia ser a Nação, tamanha é a embromação que se transmitiu mais uma vez à audiência.

Charles de Gaulle, vendo o expansionismo alemão sobre a França, certa vez desabafou que, passo a passo, aceita-se o hábito da humilhação e do recuo a ponto de torná-lo uma segunda natureza. Ainda que sob riscos imensos do vírus que se alastra, um ronco baixo nas ruas parece vir se avolumando no Brasil contra a naturalização do insulto.

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