‘Fogo no parquinho’: CPI da Covid escala Queiroga para o encerramento

‘Fogo no parquinho’: CPI da Covid escala Queiroga para o encerramento

Mário Scheffer

07 de outubro de 2021 | 19h37

“Fogo no parquinho” é a expressão para se referir ao alvoroço e confusão dentro de determinado espaço, popularizado nos programas de televisão em que participantes, confinados e infantilizados, agem como se estivessem num parque de diversões.

O reality show da CPI da Covid, para compensar a semana tépida, aprovou a terceira convocação do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, com oitiva confirmada para 18 de outubro, segundo o senador Omar Aziz.

Senador Omar Aziz confirmou oitiva do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para o dia 18 de outubro. Foto: Adriano Machado/Reuters

Empenhados em oferecer à plateia um remate singular, integrantes da CPI acharam conveniente atiçar gasolina no ministério que arde em chamas.

Com relatório a ser lido em 19 de outubro, não se sabe ainda o que a CPI pode ganhar, ao relembrar o dedo médio obsceno do ministro, o seu teste positivo para covid e a pizza que devorou na sarjeta, retratos da indigência da comitiva presidencial em Nova York.

Há de ser explorada a recente faísca no segundo escalão de Queiroga, um B.O. em delegacia que faria parte de intriga maior, a do ministro do Trabalho, Onyx Lorenzoni, interessado em enxotar o seu colega da Saúde para fora do governo.

Apequenado, Queiroga terá de explicar a cumplicidade com censura de Bolsonaro ao relatório da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), deliberação técnica extemporânea, porém contrária ao “tratamento precoce”.

Restituído aos ataques insanos contra a saúde pública, Bolsonaro não passa um dia sem humilhar Queiroga, vetou até a previsão de distribuição gratuita de absorventes femininos para estudantes de baixa renda e mulheres em situação de rua.

A CPI daria relevante contribuição ao País se, nos momentos finais, ajudasse a esclarecer qual é o plano de vacinação nacional para 2022, de onde virão os bilhões de recursos adicionais do SUS para novas rodadas de imunização, qual será o destino da Coronavac, se a vigilância epidemiológica será resgatada, se a produção nacional de vacinas irá, enfim, deslanchar.

Na sessão da CPI desta quinta-feira, 7, o médico Walter Correa expôs mais vísceras da Prevent Senior, com relato sobre coação, ameaças, represálias e assédio moral da direção da empresa contra profissionais de saúde.

“Testemunha viva da política criminosa da corporação e de seus dirigentes”, como se apresentou, Tadeu Frederico, paciente da Prevent, ainda hoje usuário do plano de saúde, detalhou as condutas da operadora “para eliminar pacientes de alto custo”.

Enternecedora, a história pessoal de um sobrevivente da pandemia causou também revolta na audiência: a medicação por teleconsulta, o “kit covid” inócuo entregue pelo motoboy, o diagnóstico tardio, a luta intensiva pela vida, a aflição decisiva da família, a desumanidade do hospital na tentativa de precipitação da morte para liberar um leito de UTI.

Julgados e punidos os desvios da Prevent, sob o risco da sociedade caminhar para trás, haverá um momento de reposicionar no debate público duas conquistas éticas imperativas, que são a autonomia médica responsável e os cuidados paliativos dignificantes.

Enquanto transcorriam as exposições pungentes de médico e paciente na CPI, a Prevent Senior fazia divulgar reclamação contra o que considera “terrorismo econômico”, refutando as conversas de que a empresa pode ser engolida pela crise e até quebrar.

Em 2015, depois que a Unimed Paulistana faliu por má gestão, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) decretou a alienação compulsória da chamada “carteira” da operadora, que contava com 744 mil assistidos, bem mais que os atuais 550 mil clientes da Prevent.

Passado o trauma para o mercado, superados incontáveis dissabores de pacientes, a transferência dos conveniados da Unimed Paulistana para outras operadoras ocorreu sem grandes tribulações.

Aberturas, fechamentos, fusões, aquisições, verticalizações, fazem parte do negócio da saúde suplementar, que nunca esteve tão aquecido, ainda mais depois do lucro do setor durante a pandemia e dos grandes aportes de capital nacional e estrangeiro.

A Prevent Senior até que fez alguma fumaça, mas o mercado de planos de saúde seguirá tonificado e a mão amiga, a ANS, pelo que se viu na CPI, permanecerá inatingida. Mais uma vez será o SUS, sem financiamento e sem comando, que sairá da pandemia carbonizado.

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