É hora de a CPI superar o mito da cloroquina

É hora de a CPI superar o mito da cloroquina

Mário Scheffer

25 de maio de 2021 | 17h36

A médica Mayra Pinheiro apresentou-se como técnica ao inaugurar a ida do segundo escalão do Ministério da Saúde à CPI. Mas sua durabilidade no mesmo cargo (já é o quarto ministro com quem despacha), remonta à sua atuação político-partidária, de dirigente de entidade médica até candidata do PSDB ao Senado, no Ceará, típico percurso recompensado pelo Poder Executivo, que costuma “puxar” para cargos apoiadores fiéis que não passaram no sarrafo do Legislativo.

Na sessão quase toda dedicada ao “tratamento precoce”, o hábito do relator da CPI de exibir o número de óbitos por covid chamou a atenção da testemunha: “ninguém quer ver as plaquinhas de não sei quantos milhões de mortos no Brasil”.

A cloroquina-molécula nem deveria mais ser julgada. Um ano depois, é a combinação de vacinas com medidas preventivas populacionais, como testagem, isolamento e máscara, que determina a saída ou não da pandemia. Estão soterradas as referências assistemáticas e primitivas do suposto benefício da hidroxicloroquina. Da Organização Mundial da Saúde e sociedades médicas aos serviços exemplares no tratamento da covid, como o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, a prescrição do medicamento é hoje condenada, seja para casos graves ou não graves.

Reemergiu, no entanto, na CPI, a cloroquina-mito, que sintetiza todo o negacionismo como política sistemática do governo federal. Na defesa da medicação, a secretária evocou a necessidade de “nos livrarmos das afirmações categóricas das verdades eternas”, e, mais adiante, tripudiou sobre a revista The Lancet, como se a produção científica, a que aspira resultados reproduzíveis e refutáveis, fosse caduca ou indiferente.

Dogmas orientaram o aplicativo TrateCov e o “Dia D”, iniciativas que foram abortadas, mas foi adiante a promoção do tratamento precoce em Manaus, enquanto pacientes tratados com cloroquina morriam sem oxigênio.

Porém, como toda compulsão, a ação repetitiva foi longe demais, chegou às mortes por nebulização de cloroquina e aos delírios de prefeitos, como os de Itajaí, em Santa Catarina, de Itaji, na Bahia, e tantos outros, que poderiam depor na CPI sobre o uso indevido de recursos na distribuição massiva do “Kit-Covid”.

Muitos estão a perguntar: por que sessões de uma CPI, peça do repertório rançoso de um parlamento malvisto, têm despertado tanta audiência? É no diário, escreveu Franz Kafka, onde encontramos provas de que, mesmo em circunstâncias insuportáveis, seguimos vivendo. Talvez o Brasil, depois de perdas tão incompreensíveis, ante episódio histórico de trágicas repercussões, tenha se tornado em parte um País atento à procura de sua humanidade.

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