Doença inventada e refúgio em hospital de elite: é a barafunda da CPI da Covid

Doença inventada e refúgio em hospital de elite: é a barafunda da CPI da Covid

Mário Scheffer

02 de setembro de 2021 | 19h48

Convocados fujões, doença simulada, relatório médico cifrado, refúgio em hospital de elite, ameaças de prisão e condução coercitiva.

A barafunda tomou conta da CPI da Covid nesta quinta-feira, 2, e transformou em anticlímax o depoimento do ex-secretário de Saúde do DF, Francisco Araújo, o reserva convocado para cobrir as testemunhas Marconny Nunes e Marcos Tolentino, alegadamente acamadas.

Senadores da CPI da Covid decidem sobre depoente do dia após ausência do advogado Marconny Albernaz ao depoimento. Foto: Gabriela Biló/Estadão

Condecorado recentemente com medalha pelo Corpo de Bombeiros do DF, mas proibido pelo TCU de ocupar cargos públicos, Araújo foi preso em 2020, acusado de fraudar licitações de testes de covid.

O depoente negou suspeita da CPI, de seu envolvimento com a Precisa Medicamentos que, além de vacina com propina, teria vendido testes com ágio na pandemia.

Assim como fez em junho, durante depoimento de defensores do tratamento precoce, a cúpula da CPI largou a sessão antes do fim, desta vez dando espaço para a participação paroquial de senadores do DF.

O intento foi murchar a bola de senadores governistas, autores de requerimentos tanto da convocação dos médicos pró-cloroquina quanto de envolvidos com desvio de recursos em governos estaduais.

Segue tépida a CPI.

Mesmo se fossem os membros da comissão todos eles incontroversos, a conduzir acuradamente apurações com foco preciso, após mais de quatro meses a CPI dificilmente manteria o arrebatamento inicial.

Senadores falam em nome do povo para esticar a investigação, mas vítimas com sequelas, famílias em luto e profissionais de saúde da linha de frente nunca foram chamados para dar seus testemunhos.

O sentimento de indignação e revolta contra o governo que tripudiou sobre a covid, agora que a pandemia arrefece, volta a rivalizar com o desencanto que muitos nutrem em relação ao atual Congresso Nacional e aos desfechos de CPIs em geral.

Pesquisas de opinião recentes confirmam que a economia, e não mais a pandemia, passou a ser o maior motivo de preocupação dos brasileiros. No lugar da lenta vacinação entram o desemprego e a inflação, e o aumento da conta de luz substitui a contagem diária de mortos por covid.

Nas convocações extremistas para o 7 de Setembro, a percepção apenas do discurso exótico degenerou-se na negação da própria intensidade do problema.

Basta dar uma olhada no engajamento assustador dos empreendedores da ruptura institucional, em contraste com o ativismo de teclado e sofá de parte dos defensores da democracia.

Entrelaçadas, as crises política e econômica concorrem poderosamente com a crise sanitária que não foi embora.

Em tempos de conflitos e disputa eleitoral antecipada, os indiciamentos que serão sugeridos pelo inquérito parlamentar correm o risco de protelação ou arquivamento.

Por isso, o plano B da CPI da Pandemia deveria ser o SUS.

Para tirar lições para o futuro, comissões do Legislativo de vários países têm buscado compreender causas do despreparo e das falhas fatais de sistemas de saúde que não enfrentaram bem a emergência sanitária.

Isso implica rever ponto por ponto, questionar duramente e punir gestores sobre decisões equivocadas, mas também desenhar reformas e aprovar reforços para que sistemas públicos garantam melhor proteção da sociedade daqui em diante.

A CPI começou corajosa, revelou-se quixotesca e não merece terminar apequenada.

A responsabilização, com reparações ou cadeia, é desejo inegociável, mas a defesa do SUS pode ser outra saída honrosa para o relatório final.

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