Depois de cloroquina e gabinete paralelo, os irmãos Miranda são a dupla da vez na nova turnê da CPI, agora estreando o tema da corrupção

Depois de cloroquina e gabinete paralelo, os irmãos Miranda são a dupla da vez na nova turnê da CPI, agora estreando o tema da corrupção

Mário Scheffer

25 de junho de 2021 | 20h36

Deputado Luis Miranda e seu irmão, o servidor Luis Ricardo Miranda (esq.), depõem na CPI da Covid / FOTO: GABRIELA BILÓ/ESTADÃO

“Como tudo aconteceu …” , prometia a inscrição em vídeo antes da atarantada exposição do primeiro depoente, ao lado do irmão deputado que chegou ao Senado com Bíblia à mão e colete à prova de balas, relatando ameaças sofridas.

A trajetória de ambos era frugal até a fama instantânea. Luis Miranda, o parlamentar, cursou até o ensino médio e declarou à Justiça Eleitoral em 2018 bens que somam R$ 7 milhões. Luis Ricardo, o servidor público, é agente administrativo de carreira do Ministério da Saúde, admitido em 2011, e recebe R$ 8 mil mensais brutos em cargo comissionado desde o governo Temer, quando tornou-se chefe da divisão de importações da pasta.

Em comum, os irmãos reúnem expectativas não atendidas de inserção e influência no governo Bolsonaro. O deputado foi preterido como relator da reforma tributária e o funcionário foi ameaçado de demissão quando Pazuello era o ministro interino da saúde.

À CPI, detalharam a cronologia da “pressão atípica” sofrida por um, para agilizar a importação da vacina, e o desapontamento do outro, quando alertou um presidente da República desinteressado.

As testemunhas salientaram a ligeireza na pré-aquisição da Covaxin pelo Ministério da Saúde, antes achincalhado na CPI por ser penoso na negociação das demais vacinas. Reforçaram o contrato irregular em nome de empresa “laranja” e a antecipação do pagamento que faria da Covaxin a dose mais cara no cartel nacional de imunizantes.

A suspeita de corrupção deve tragar Bolsonaro para o centro do inquérito parlamentar e abre uma avenida para a CPI da Covid.
Uma tese é que os poderes excessivos conferidos ao governo federal pelo estado de emergência na pandemia aumentaram a probabilidade de favorecimento a empresas. Vultosas somas de dinheiro para a compra acelerada de vacinas seriam brechas para potenciais ilícitos envolvendo autoridades.

Sancionada por Bolsonaro em março de 2021, a Lei nº 14.125 autorizou a compra direta de vacinas pela iniciativa privada. Para além das transações com o governo, a Precisa vislumbra abastecer o mercado interno, paralelo à vacinação no SUS. Em janeiro deste ano a empresa levou comitiva de representantes de clínicas de vacinas à Índia, onde visitaram a fábrica da Bharat Biotech e acertaram a importação da Covaxin.

Se a CPI esticar o fio da apuração , poderá talvez ilustrar a gênese de um tipo de corrupção no Brasil, aquela urdida pelos escusos vínculos entre Legislativo e Executivo.

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