CPI da Covid: sacrifício do motoboy não livrou VTCLog da enrascada

CPI da Covid: sacrifício do motoboy não livrou VTCLog da enrascada

Mário Scheffer

01 de setembro de 2021 | 20h15

No começo da semana, em nota, a empresa VTCLog se vangloriou de ser o “braço logístico do SUS” e lamentou as “vidas que foram açoitadas por todos os cantos do nosso planeta”.

Tem alguma coisa errada numa empresa que nacionaliza o orgulho do seu negócio com o Ministério da Saúde enquanto internacionaliza condolências pelas mortes por covid.

O motociclista da VTCLog, Ivanildo Gonçalves da Silva, em depoimento para a CPI da Covid

O motociclista da VTCLog, Ivanildo Gonçalves da Silva, em depoimento para a CPI da Covid. Foto: Adriano Machado/Reuters

Com dirigentes convocados e o nome atirado na lama, a VTCLog mudou de ideia e ofereceu à CPI primeiro o trabalhador de menor patente, o motoboy, antes amparado pelo STF para não comparecer à comissão.

Nem boi de piranha, nem bode expiatório. O sacrifício de Ivanildo não livrou a VTCLog de enrascada, não recaiu sobre ele culpa alheia, mas também não sobrou quase nada do seu depoimento.

Foram negadas ou vagamente confirmadas informações que a CPI já dispõe: muitos saques de até R$ 400 mil na “boca do caixa” em banco localizado no aeroporto de Brasília, pagamentos e depósitos suspeitos, idas frequentes ao Ministério da Saúde.

Alvo paralelo mais recente da CPI, a apuração dos novos indícios contra a VTCLog, se levada a cabo, desfaz e remaneja a previsão de entrega do relatório final da comissão.

Relações público-privadas pervertidas, gestores capturados e níveis endêmicos de corrupção sempre subtraíram recursos já escassos do SUS.

Embora Estados e municípios façam aquisições diretas de insumos essenciais, o Ministério da Saúde centraliza boa parte da compra de medicamentos, vacinas, soros, kits para testes e exames, seringas, máscaras e outros itens.

Por ser um país de dimensão continental, é gigantesca a logística para armazenamento e distribuição, que precisa garantir conservação, segurança, fluxos de estoque e rapidez de entrega.

Os insumos da saúde passam por muitas mãos que importam, fabricam, envasam e embalam, antes da entrega em unidades de saúde e farmácias.

Cada transação embute uma responsabilidade pública e uma oportunidade privada.

Há países, como EUA e Japão, onde grandes empresas controlam toda a logística; em outros, os sistemas de saúde contam com agências públicas nacionais que assumem as operações.

No Brasil, as distribuidoras são registradas na Anvisa mas não existe base de dados pública sobre quem são, onde e como atuam ou se relacionam entre si.

Atenções de órgãos de controle se voltam mais frequentemente para fraudes nas licitações e propinas em compras governamentais.

O que vemos agora na CPI é que também a cadeia de suprimentos, com orçamento bilionário e delegação ao setor privado contratado, é suscetível à corrupção.

Neófito da saúde pública, ministro de poucas pautas, Ricardo Barros, quando comandou a pasta da Saúde, de 2016 a 2018, distinguiu-se pela proximidade inata com dois grupos de predadores do SUS: empresários de planos saúde e fornecedores e intermediadores de medicamentos e insumos.

O SUS já tem problemas de sobra, como a alta rotatividade e a baixa eficiência de ministros da Saúde – foram nove nos últimos dez anos.

O que Ricardo Barros fez foi introduzir desordem em seara antes exitosa, ao abrir caminho para a VTCLog, dando fim à Central Nacional de Armazenagem e Distribuição de Imunobiológicos (Cenadi).

A CPI dá o melhor papel ao relator, que não tem resistido à tentação de destacar-se.

Renan Calheiros poderá oferecer um longo relatório à la carte, onde cada um vai ler o que quiser.

Mas se o propósito for também melhorar o SUS, deveria incluir um tutorial sobre como a corrupção se manifesta e pode ser combatida, acompanhado da prescrição de medidas concretas de mitigação.

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