CPI da Covid revelou uma nova espécie de vilipêndio de cadáveres

Mário Scheffer

17 de agosto de 2021 | 20h52

Um homem de 75 anos, em quarentena domiciliar depois de teste positivo de covid, sofreu uma queda em casa. Resgatado pelo SAMU, levado ao hospital, não resistiu ao acidente, faleceu dois dias depois.

O caso hipotético consta de um manual do Ministério da Saúde para a Declaração de Óbito (DO) no contexto da pandemia. A orientação, correta, é que toda DO deve conter a sequência de eventos que levaram ao óbito. No exemplo usado, seriam o tombo e o traumatismo cranioencefálico. E, em campo à parte, devem ser registradas outras doenças do paciente, se existirem. No caso do idoso acidentado, a covid.

Baseado neste episódio ilustrativo, o auditor do TCU, Alexandre Figueiredo, ouvido pela CPI, elaborou um documento puxa-saco, que ajudaria o governo a minimizar o número de mortos pela pandemia

 

Movido pelo interesse em bajular e pela inclinação bolsonarista da família, o servidor público não persuadiu a audiência sobre sua boa-fé ou sensatez.

Atribuído falsamente ao TCU por Bolsonaro, o “estudo”, segundo o qual metade das mortes por covid não teria ocorrido, além do uso político destemperado, continha erros técnicos rudimentares.

O autor, cuja conduta funcional inadequada foi sucedida de crime contra a fé pública, primeiro desconfiou da padronização de preenchimento da declaração de óbito, procedimento universal. Depois, insinuou que secretarias de saúde promovem maior contagem de mortes por covid para receber mais recursos federais. Arrematou com ilação primária, ao manusear dados de óbitos de uma fonte única e limitada, que são os Cartórios de Registro Civil.

Inaugurou, assim, uma nova espécie de vilipêndio de cadáveres, ao produzir peça hedionda, de menosprezo à memória dos mortos e de ofensa à família de tantas vítimas da pandemia.

Na sessão da CPI, em junho, dedicada à produção científica sobre mortes evitáveis por covid no Brasil, restou demonstrado que o excesso de mortalidade por todas as causas, comparando os anos anteriores ao período da pandemia, é o método mais adequado para avaliar o impacto da covid.

Ao contrário da patacoada do auditor do TCU, pesquisas sérias trabalham com a hipótese de que o número atual divulgado, de 570 mil mortes, pode ser muito menor do que o real. Isso porque muitas pessoas faleceram por causa da covid, mas nunca foram diagnosticadas, pois faltaram testes. Serviços de saúde, sobrecarregados, não conseguiram testar nem tratar parte dos pacientes. A causa, covid, pode ter sido omitida em mortes que aconteceram em casa, na fila de espera ou na rua, por desassistência.

Lugar de amizades reveladas e palavras contestadas, a CPI registrou mais uma explicação epopeica: antes da adulteração para esquentar o documento, ocorrera um vazamento de “conversa íntima entre pai e filho”. A pretexto de “mostrar o que fez no trabalho naquela semana”, o embuste teria sido enviado pelo depoente ao pai, coronel reformado e amigo próximo de Bolsonaro.

Com o depoimento, a CPI encorpa suas conclusões, de que comportamentos e conduções de Bolsonaro moldaram a pandemia no Brasil nos seus piores caracteres.

É interessante ouvir o testemunho sobre a gênese do argumento da supernotificação de mortes por covid, apontando para o mesmo método já explorado em oitivas anteriores, como as que trataram da fabricação da tese infundada do “tratamento precoce”.

Impressiona não só a subserviência da realidade dos fatos à mentira, deliberadamente fabricada. Confiam, os manipuladores, na propagação coadunada de notícias falsas combinada com a promoção da rivalidade entre “nós” e “eles”, remedada de governos passados.

O triunfo do extremismo do Taleban, no Afeganistão, alertou o mundo e o Brasil do quanto a procura da verdade deve ser realçada em primeiro plano no debate público. Antes que a própria ideia de verdade se torne indiferente e obsoleta.

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