CPI da Covid lavou as mãos sobre os planos de saúde na pandemia

CPI da Covid lavou as mãos sobre os planos de saúde na pandemia

Mário Scheffer

16 de setembro de 2021 | 21h21

O fim anunciado da CPI passou a beneficiar as últimas testemunhas programadas, que apostam em medidas protelatórias para escapar definitivamente do depoimento.

Até a votação do documento final, as próximas sessões da CPI podem ser dedicadas a acomodações e penduricalhos.

Flash de câmera deixa em evidência silhueta do senador Renan Calheiros.

O relator da CPI da Covid Renan Calheiros. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Enquanto acordos de bastidores sobre o relatório já escrito dão o jogo por jogado, senadores governistas ganham prêmio de consolação.

Deve ser ouvido na próxima semana o ministro Wagner Rosário, da CGU, sobre supostos desvios de recursos federais repassados a Estados e municípios para o combate à covid.

Já requerimentos novos, da convocação da ex-mulher de Bolsonaro ao pedido de explicações sobre a posição do Ministério da Saúde contrária à vacinação de adolescentes, sinalizam algum erro de finalização, lançando a audiência da CPI em um looping irritante.

A reta final ajuda a esclarecer o alcance da apuração, tudo que ficou pelo caminho e o motivo da ausência de grandes temas.

O não comparecimento de Pedro Batista Jr., da Prevent Senior, nesta quinta-feira, é emblemático. Os planos de saúde foram deixados por último e, mesmo assim, tangenciados.

O “tratamento precoce” está sepultado pela vacina, pela ciência e pelas agências reguladoras de medicamentos em todo o mundo. Mas, em 2020, o delírio criminoso de Bolsonaro envolvia muita gente, inclusive empresários de planos de saúde bajuladores de governos, seja ele qual for.

Para agradar o presidente ou abastecer o famigerado gabinete paralelo, algumas empresas foram longe demais, forçaram a distribuição do “kit-covid” e a prescrição médica, denúncias documentadas pela CPI. Contra a Prevent Senior pesa agora a acusação de condução antiética de experimento com seres humanos e de ocultação de dados sobre mortes de pacientes com intenção de manipular resultados de estudo.

O mau comportamento de planos de saúde e da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) durante a crise sanitária justificariam a abertura de uma nova CPI.

Operadoras tiveram autorização da ANS para manter reajustes abusivos, negaram testes de covid e se omitiram de compartilhar leitos nos momentos de colapso do SUS. Lucraram com a pandemia, perderam poucos clientes e aproveitaram para ir às compras, expandiram suas redes de clínicas e hospitais.

Enquanto o País ainda conta seus mortos e o SUS se vira como pode, o setor vê oportunidade única de “passar a boiada”.

Por iniciativa do Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, foi reativado o Conselho de Saúde Suplementar – Consu. A ANS passou a ser presidida pelo ex-chefe de gabinete de Ricardo Barros. E Arthur Lira instalou comissão especial na Câmara que prevê mudar a lei dos planos de saúde.

Com o Centrão no comando, planos de saúde sonham em liberar de vez o aumento de mensalidades, alterar o estatuto do idoso para permitir reajustes acima dos 60 anos e vender planos de cobertura reduzida, inclusive “planos virtuais”, com amplo uso de telemedicina.

Querem, como sempre, expansão do mercado às custas de dinheiro público, do SUS, de regulação frouxa e de relações impublicáveis com parlamentares e governo.

Agora mesmo, junto com outros segmentos privados, buscam derrubar o ponto da reforma tributária que prevê o fim de isenções para produtos da saúde.

O relatório final da CPI deverá apenas citar uma ou outra operadora pró-cloroquina.

De efeito mais catártico que transformador, a CPI, neste mote, lavou as mãos.

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