CPI da Covid organiza despedida com barulho e lágrimas

CPI da Covid organiza despedida com barulho e lágrimas

Mário Scheffer

23 de setembro de 2021 | 19h39

Com a previsão de mais duas semanas de funcionamento, a CPI da Covid aderiu à tática dos programas policialescos de grande audiência, que costumam esticar a cobertura por vários dias quando uma desgraça exibida causa impacto e horror.

Para alimentar o escândalo da Prevent Senior, a CPI vai ouvir a advogada dos médicos que denunciaram barbaridades cometidas pela empresa.

O presidente da CPI da Covid, Omar Aziz, ao lado do relator Renan Calheiros

O presidente da CPI da Covid, Omar Aziz, ao lado do relator Renan Calheiros. Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

A atração maior, no entanto, deverá ser a oitiva de Luciano Hang na próxima semana. A mãe do empresário amigo de Bolsonaro morreu por complicações da covid em hospital da Prevent, que teria forjado o atestado de óbito.

“Será um prazer”, já declarou o alegórico convocado, que prenuncia a CPI como um palco. Hang foi citado várias vezes na comissão, por propagar fake news, participar do chamado gabinete paralelo, pressionar a liberação da compra de vacinas pelo setor privado e abrir as portas do Ministério da Saúde para negociantes.

A Prevent Senior, que “fez testes mortais com idosos”, e a Precisa Medicamentos, por suas “negociações malcheirosas”, aspas do relator, Renan Calheiros, se revezam como triunfos do inquérito parlamentar.

Na despedida com barulho, senadores querem novo depoimento do ministro Marcelo Queiroga, depois do dedo médio apontado e do teste positivado. Pelo menos um dos motivos da possível convocação perdeu apelo, pois o governo voltou atrás e agora preconiza a vacinação de adolescentes. Capitais como Rio de Janeiro e São Paulo já alcançaram cobertura de primeira dose acima de 90% entre quem tem de 12 a 17 anos, o que também limita a exploração pela CPI.

A escalação pode mudar. Foi requerida a presença do secretário de Saúde de São Paulo, para esclarecer notificação de mortes, e aprovada a realização de cerimônia emotiva em homenagem às vítimas da covid-19.

Na sessão desta quinta-feira, 23, o empresário Danilo Trento evocou o direito de ficar em silêncio, não diminuiu nem acrescentou à história já amarrada pela CPI: o contrato firmado pelo Ministério da Saúde para a compra da vacina Covaxin é produto de uma teia de corrupção formada pela Precisa, pela empresa de Trento e outros CNPJs amigos, envolve lavagem de dinheiro, agência de turismo, offshore em paraíso fiscal, fiadores, sócios ocultos e lobistas. As vacinas não foram compradas, mas as evidências da transação caracterizam crimes, como o de prevaricação.

Danilo admitiu ter se encontrado com membros da família Bolsonaro em “eventos”, mas negou ter participado de confraternização com Roberto Dias, ex-chefe do balcão de compras da Saúde, disse que nunca falou com o deputado Ricardo Barros e não revelou o nome do senador com quem viajou a Las Vegas (EUA) para tratar do promissor mercado de jogos de azar no Brasil.

Para confrontar o depoente, a CPI colocou em tela a íntegra do e-mail com a “arquitetura ideal para o processo de kits”. Se existisse um museu dos crimes famosos contra a administração pública, a mensagem ganharia redoma.

De autoria atribuída, por senadores, a Danilo Trento, a prova enumera os passos para ganhar uma licitação de testes de covid em conluio com gente de dentro do Ministério da Saúde.

Saindo da linha da corrupção, o que veio à memória é que uma das promessas do plano de trabalho da CPI , aprovado em abril, era justamente investigar a “aquisição e distribuição de testes diagnósticos”.

Assim como o governo negligenciou a oferta, a CPI desprezou a apuração da falta de testes de covid no SUS.

Em agosto de 2021 foram distribuídos a Estados e municípios apenas 763 mil testes, a menor quantidade desde abril de 2020. O Ministério da Saúde adquiriu até hoje 39,8 milhões de exames, o que coloca o Brasil entre países que menos testam contra covid no mundo.

Testes em massa salvaram muitas vidas, como foi visto na Alemanha e na Coreia do Sul. Já o “apagão” da testagem, tanto no SUS quanto no setor privado, contribuiu para as quase 600 mil mortes por covid no Brasil.

O fiasco nacional teve início nas gestões dos ex-ministros Henrique Mandetta e Nelson Teich, que anunciaram e não entregaram a “usina de exames” e o “pool de laboratórios”, projetos que previam contratar a empresa Dasa (Diagnósticos da América) e acionar os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens), vinculados às secretarias de saúde estaduais.

Só muito recentemente, em 17 de setembro, o ministro Queiroga apresentou o “Plano Nacional de Testagem”, mas que dependerá da entrega prometida pela Fiocruz, de 60 milhões de testes de antígeno até o final de 2021, com investimento de cerca de R$ 1,2 bilhão. A fundação até então fornecera pouca quantidade de testes moleculares (RT-PCR) ao SUS.

Ao renunciar à coordenação e ao poder de compra, o Ministério da Saúde obrigou Estados e municípios a adquirirem testes mais caros e insuficientes.

O teste positivo seguido de isolamento e rastreamento de contatos ainda é essencial para o controle da pandemia. Deve fazer o teste quem, mesmo totalmente vacinado, apresentar sintomas ou tiver entrado em contato próximo com alguém com suspeita ou confirmação de covid. Testes rápidos em abundância no SUS tornariam mais seguros ambientes coletivos como locais de trabalho, lazer, escolas e transportes.

Ao decidir avançar até outubro, a CPI talvez tenha tempo de incluir parte do que largou para trás e contribuir com soluções para os desafios que o SUS terá pela frente.

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