CPI da Covid expõe conluio entre governo, empresários e médicos

CPI da Covid expõe conluio entre governo, empresários e médicos

Mário Scheffer

11 de agosto de 2021 | 19h33

Os defensores da democracia sentiram ontem o tutano dentro dos ossos, por mais patética que tenha sido a encenação dos tanques de guerra em movimento.

Insuficiente para dar vitória ao voto impresso, o ingresso de 229 deputados na pauta golpista não põe fim à conversação mais tensa.

Senador Omar Aziz com outros membros da CPI da Covid

CPI deve antecipar a sugestão de enquadramento de Bolsonaro em crimes de responsabilidade, prevaricação, charlatanismo e contra a saúde pública. Foto: Pedro França/Agência Senado

Mas é preciso falar também do pavor de Bolsonaro, daquele medo histórico diagnosticado por Jean Delumeau, em História do Medo no Ocidente. As atitudes ruidosas e as falsas aparências costumam camuflar reações à tomada de consciência de um perigo, e realçar a confusão mental entre medo e covardia, coragem e temeridade.

A tranquilidade do governo está por ora afiançada por dois ases do baralho bolsonarista, Arthur Lira e Augusto Aras, dilatada pelo quinta-colunismo de Ciro Nogueira, disposto a tentar a sabotagem e a desmobilização da CPI em sua reta final.

Mesmo sob proteção reforçada, mais tenaz que isolado, o presidente deveria encetar a marcha da preocupação, pois a conta, por ter conduzido o País ao abismo durante a pandemia, está por chegar.

O povo semi-imunizado já ocupa muito mais os locais de trabalho, as escolas e as ruas. E a CPI deve antecipar a sugestão de enquadramento de Bolsonaro em crimes de responsabilidade, prevaricação, charlatanismo e contra a saúde pública.

No capítulo das transgressões do governo federal praticadas por meio dos tratamentos sem eficácia e segurança, a oitiva do diretor-executivo da Vitamedic, Jailton Batista, confirma o teor de material recebido pela CPI, que documenta a ação de empresas similares.

Jailton descreveu como o setor farmacêutico nacional baixo-clero foi “impactado positivamente” pela pandemia. As vendas de ivermectina e dos demais componentes do chamado “kit-covid” saltaram , o preço médio das unidades subiu, o faturamento dos fabricantes explodiu.

A Vitamedic , ressaltaram senadores na CPI, foi além, pois aliciou uma associação de médicos promotora do “tratamento precoce”, financiando viagens, diárias, lives e publicidade em grandes jornais.

A audiência obteve uma resenha exemplar das empresas-abutre, cujos donos são, invariavelmente, apoiadores de Bolsonaro desde as eleições de 2018.

De hábitos necrofágicos, vivem de bicar o SUS, e decifram a baixíssima capacidade tecnológica e produtiva do complexo industrial da saúde brasileiro.

Por tabela, o caso da ivermectina e da Vitamedic salienta uma regulação frouxa que favorece negócios elásticos. Expõe a Anvisa, que descuida dos medicamentos que podem ser vendidos sem receita médica diretamente ao consumidor, e a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (Camed), que permitiu aumento indevido de preços na pandemia.

Adicionalmente, o que se pode concluir do depoimento é que durante a tragédia sanitária da covid no Brasil circulam distintas cepas de governantes, empresários e médicos.

A decisão pessoal e discricionária de Bolsonaro, de substituir medidas populacionais adequadas – testes, quarentena, máscaras e vacinas -, por medicamentos imprestáveis, encontrou dois abrigos: empresas oportunistas que fabricam, promovem a venda e o uso; e “jalecos brancos” inescrupulosos, que oferecem a prescrição sabidamente mais ideológica do que científica.

Uma das promessas da CPI é submeter parte do relatório final ao Tribunal Penal Internacional de Haia. A história dos crimes contra a humanidade está farta dessas alianças imorais. Das companhias químicas que fabricaram o gás da morte para o governo nazista, aos bancos que financiaram a compra de armas em benefício do governo hutu, em meio ao genocídio dos tutsis, em Ruanda. Dos médicos condenados no processo de Nuremberg após a segunda guerra, aos médicos assistentes de torturas, colaboradores da ditadura militar no Brasil.

Neste momento da vida nacional, em que movimentos sinistros se esforçam para que a própria ideia de verdade e democracia seja indiferente e obsoleta, torna-se questão fundamental da política a maneira como desenvolvemos coletivamente os julgamentos baseados em fatos.

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