Perto do fim, CPI da Covid pode não se comprometer com a defesa do impeachment

Perto do fim, CPI da Covid pode não se comprometer com a defesa do impeachment

Mário Scheffer

14 de setembro de 2021 | 19h04

O empresário Marcos Tolentino finalmente depôs na CPI, sob ameaça de condução coercitiva, caso não aparecesse. Suspeito de atuar como lobista no imbróglio da Covaxin, jurou que não é sócio oculto de empresa que forneceu garantia irregular para a compra da vacina, e que não é amigo secreto do deputado Ricardo Barros e dos filhos do presidente. Precavido, ouviu quieto acusações de senadores sobre falcatruas societárias e trambiques empresariais.

A comissão talvez pudesse ter recebido o título mais exato de “CPI das vacinas”, tamanho o tempo que ainda destina à demora do governo em adquirir imunizantes necessários e à pressa de empresas e agentes públicos em tentar corromper as compras da Saúde.

Senador Renan Calheiros em evidência, usando um óculos e uma máscara

O senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid.

O destino do relatório da CPI após o final de setembro, em enésimo prazo anunciado para o término dos trabalhos, poderá frustrar expectativas, e não só pela trajetória monotemática recente.

Em entrevista pouco antes da sessão desta terça-feira, 14, o relator, Renan Calheiros, aplicou logo uma vacina, ao dizer que seu texto vai propor alterações na legislação “com relação ao encaminhamento de comissão parlamentar de inquérito e a tramitação de suas análises tanto na Procuradoria-Geral da República quanto na Câmara dos Deputados, no que significar processo de impeachment do presidente da República”.

Por baixo da superfície de inabalado controle, o clima dos últimos depoimentos programados transpira ambiguidades da CPI. O anúncio do final antevê o comedimento dos efeitos práticos e não disfarça o apego de senadores ao ritmo arrastado.

Pré-candidatos, eles sabem que muitos dos holofotes serão desligados após a solenidade de encerramento. Alguns vão disputar a reeleição ao Senado mas outros arriscaram cálculos embevecidos na vitrine da CPI, querem ser governadores e até presidente.

Ao saírem do cercadinho temático, onde é mais tranquilo ser oposição, a conversa será bem outra. O resultado produzido no papel de investigadores pode não combinar com o figurino de suas legendas, que se dividem entre governistas, neutras e calculistas.

No Congresso, acordão em curso confirmaria hoje maioria contra o impedimento. Nas ruas, megaprotestos, como aqueles que precederam impeachments do passado, podem dar lugar a desfiles alternados de bolhas que torcem o nariz para outras bolhas.

O “fora Bolsonaro” de uns é pra já, mas ainda sabotado pela frente amplamente dividida; o de outros é pra depois, pouco importa o tanto que o povo vai sofrer até as eleições de 2022.

Restam poucos dias para seu fim – “se não surgir mais nada “, ou se ” fortes indícios” não impedirem, advertem, respectivamente, os senadores Randolfe Rodrigues e Omar Aziz – e a CPI continua recebendo imenso volume de material que será provavelmente desperdiçado, por falta de tempo, de pessoal capacitado para análise no Senado ou pela mudança de foco da comissão.

Por exemplo, poderão ser descartados conteúdos requeridos após denúncia do ex-governador Witzel na CPI, de que milícias mancomunadas com Organizações Sociais roubam dinheiro do SUS no Rio de Janeiro.

Investigações ficarão sem arremates. Veja-se o caso de alguns bancos, como Itaú e Banco do Brasil, que pediram prorrogação de entrega de sigilo de empresas e pessoas envolvidas com contratos superfaturados do Ministério da Saúde . Quando mandarem as informações, pode ser tarde demais. (Doc 2516, Doc 2471).

Em outra linha cara à CPI, a promoção de medicamentos inócuos, o Ministério Público da Bahia informou o arquivamento de ação contra a Associação Médicos pela Vida, que espalhou outdoors no Estado com a mensagem “Covid tem cura, peça tratamento precoce”. Foi considerado que não havia “interesse federal direto e imediato a justificar a atuação do Ministério Público Federal” (Doc 2511).

Já o Twitter considerou a requisição da CPI “excessivamente ampla e desnecessária” e não forneceu detalhes de contas bolsonaristas comprovadamente disseminadoras de fake News na pandemia. (Doc. 2442).

Por sua vez, um Conselho Regional de Medicina negou-se a compartilhar processo ético contra planos de saúde que obrigavam médicos a receitar cloroquina e ivermectina (DOC. 2380).

Tolentino, a testemunha da vez, é dono de um bizarro canal de televisão que exibe sem parar o Elo Perdido, um seriado tosco dos anos 1970, no qual personagens caem num redemoinho e são transportados para um mundo estranho, de criaturas esquisitas.

Para assegurar a audiência até aqui, a CPI criou mundos paralelos, mas agora não dá mais para fugir do fato concreto original e da pergunta central: Bolsonaro será ou não incriminado por centenas de milhares de mortes evitáveis por covid no Brasil?

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