A CPI da Covid tem um coelho na cartola?

A CPI da Covid tem um coelho na cartola?

Mário Scheffer

21 de setembro de 2021 | 22h43

O relatório da CPI não será mais lido na próxima sexta-feira.

Talvez exista um coelho na cartola, mas causa perplexidade a comissão do Senado, no seu desenredo, se apresentar como surfista de noticiário: o comportamento ignóbil de Bolsonaro na reunião da ONU, o gesto obsceno do ministro da saúde dirigido a manifestantes, a picardia de Jair Renan no Instagram, a busca de documentos na sede da Precisa Medicamentos, as acusações de uso de cobaias humanas pela Prevent Senior, a posição do governo federal contra a vacinação de adolescentes.

O ministro da Controladoria-Geral da União Wagner Rosário em depoimento à CPI da Covid. Foto: Roque de Sá/Agência Senado

O risco da prorrogação é grande, pois a CPI tende a perder força e relevância.

Perde também atração, por causa da chamada “fadiga pandêmica”, uma reação coletiva natural.

A CPI foi favorecida em seu início por sistemas adaptativos de atenção, que os humanos usam em curto prazo para a sobrevivência em situações altamente estressantes. Contudo, quando as circunstâncias terríveis e ultrajantes se arrastam, o esgotamento tende a gerar desmotivação e desesperança. O governo não mudou, a CPI não fez a realidade mudar e a maioria das pessoas, ainda mais com o avançar da vacinação, quer pouco saber da pandemia.

A CPI transmitida ao vivo se distinguiu por arrastar diariamente desgaste para dentro do governo. Não é exagero dizer que a CPI exacerbou o isolamento e a condenação pública de Bolsonaro.

Mas depois que as investidas golpistas coroaram a crise política, condicionando-a para muito além da crise sanitária, a CPI perdeu protagonismo.

Se fosse feita uma ecografia política para avaliar condições internas da CPI, o diagnóstico seria uma síndrome pré-eleitoral.

Investigadores da Nação, inquiridores da ética, são títulos a que alguns membros da CPI nem tinham direito, mas pelos quais gostam de ser tratados, pois asseguram certa absolvição popular, para apagar faltas do passado ou garantir êxitos em 2022. Há quem sonhe, como Ícaro, em deixar Creta voando alto, outros só querem sobreviver politicamente onde estão.

São aguardadas as sugestões de responsabilização civil e criminal de Bolsonaro e extensa trupe.

Mas não há como esconder a limitação da CPI em forçar a abertura de processo de impeachment no Congresso Nacional ou de ver o presidente condenado na corte de Haia, desfechos de maior transcendência.

Em um passo bem atrás, a proposta do relatório consistirá em mudar a lei de impeachment, de 1950, que não prevê nenhuma atenção especial ao relatório final de uma CPI, seja na PGR ou na Câmara dos Deputados.

Já a oferta da denúncia contra Bolsonaro ao Tribunal Penal Internacional exigirá a comprovação de que quase 600 mil mortes resultaram diretamente de uma política de Estado sistemática e generalizada. Porém, sabe-se que a CPI não investigou a fundo as perdas humanas evitáveis e as omissões do governo contra indígenas e outras populações desigualmente expostas à infecção pelo vírus e à morte por covid. Isso dificulta a aproximação com as definições técnicas da ONU de genocídio e crime contra a humanidade.

O depoente do dia, Wagner Rosário, negou sua omissão sobre negociatas de vacinas, e ouviu pedido de desculpas do senador Omar Aziz, arrependido de ter cravado no ministro da CGU a alcunha de prevaricador. Conforme esperado, ele agradou governistas ao dizer que a CGU identificou desvios de até R$ 250 milhões de recursos federais repassados a estados e municípios para o combate à covid-19.

Enquanto Rosário batia boca no Senado, Bolsonaro horrorizava Nova York e sua ex-mulher debochava da CPI nas redes sociais.

Com final reprogramado para outubro, a CPI nos próximos dias pode dizer a que veio ou ficar subordinada a um punhado de escândalos do momento, se alimentando do efeito negativo das causas que deram origem à sua existência.

Nos shows de música, o retorno premeditado ao palco, após o final anunciado, implora a aclamação do público. Na política, pode ser um sinal do ciclo vicioso que impede a ação e a mudança.

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