Relatório da CPI: faltam pecados e pecadores

Relatório da CPI: faltam pecados e pecadores

Mário Scheffer

20 de outubro de 2021 | 19h56

Ao longo dos últimos seis meses, grande audiência prestigiou a CPI, pois escândalos, revelações e ratices a levava a isso.

O plano de trabalho original da CPI contava com seis linhas e 19 fatos a serem investigados. Temas nada concêntricos, boa parte foi largada para trás, alguns marcaram presença burocrática e outros se deslocaram, ganharam importância no documento final.

Pessoa revira papéis numa mesa ao lado do senador Renan Calheiros

Relator da CPI, senador Renan Calheiros apresentou o relatório final nesta quarta-feira, 20. Foto: Gabriela Biló/Estadão

No limite da CPI, a história da transgressão de Bolsonaro na pandemia pode reduzir-se a um relatório articulado em três conjuntos de circunstâncias e três casos paradigmáticos.

Primeiro, esmiuçou-se o negacionismo e o avesso da saúde pública. Aqui, desfilaram o tratamento precoce, a imunidade de rebanho, a oposição a isolamento social e máscaras, a mentira propagada, o chamado gabinete paralelo.

Num segundo bloco, o dos indícios de corrupção, demonstrou-se a tentativa de compra de imunizantes por meio de atravessadores, as falcatruas na área de logística e distribuição de insumos do Ministério da Saúde e os desvios de recursos nos hospitais federais do Rio de Janeiro.

Já a mistura de omissão deliberada com gestão incompetente, determinou o atraso no início da vacinação, a baixa execução orçamentária e a falta de coordenação que obrigou Estados e municípios a se virarem como podiam.

Havia farto material disponível sobre o “apagão” de testes, a falta de respiradores e as evidências sobre mortes evitáveis, entre tantos exemplos descartados. A CPI, ao fim, elegeu três casos para exame mais ou menos consubstanciados: o plano de saúde Prevent Senior, a crise no Estado do Amazonas e o impacto da covid nos povos indígenas.

Da separação de objetos sobrou uma relação reducionista de indiciados. Dos 66 nomes, 23, que não são santos, atuam na saúde: oito ocupantes de cargos federais e, os demais, médicos da Prevent ou frequentadores do Palácio do Planalto, todos na órbita de remédios inúteis, vacina ou fake news. Para decifrar porque o Brasil fracassou no controle da pandemia, ainda falta incluir novos pecados e muito mais pecadores.

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