CPI ajuda a explicar método da extrema direita no Brasil

CPI ajuda a explicar método da extrema direita no Brasil

Mário Scheffer

10 de agosto de 2021 | 19h04

Num País portador de amanhãs incertos, enquanto blindados das Forças Armadas rodeavam o Congresso Nacional no dia de votação da PEC do voto impresso, a CPI da Covid coletava o testemunho de mais um, dentre os vários militares mencionados em suspeitas negociações de vacinas contra a covid.

Não faltam à CPI elementos e confirmações das tentativas enevoadas de aquisição de imunizantes pelo Ministério da Saúde.

O senador Omar Aziz aponta o dedo para frente

O presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz, no depoimento desta terça-feira, 10. Foto: Jefferson Rudy/Agencia Senado

O silêncio ilimitado do tenente-coronel da reserva, Helcio Bruno, só indicou que a comissão perdeu tempo demais na regressão infinita do mesmo tema.

De assuntos passados, são igualmente abundantes os indícios de que medidas deliberadas do governo, como a promoção da cloroquina e a defesa da imunidade de rebanho, geraram circulação incontrolável do vírus e centenas de milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas.

Faz sentido, portanto, a intenção anunciada do relator de caracterizar logo os crimes de responsabilidade e concluir os trabalhos antes do tempo máximo de prorrogação da CPI.

A oitiva desta terça-feira foi inútil para acrescentar fato novo ao episódio da empresa Davati, aquela que quase vendeu ao governo milhões de doses de “vacina-fantasma”.

Mas serviu para reluzir o Instituto Força Brasil (IFB), presidido pelo depoente, ONG que pode assumir significado inesperado.

O IFB do coronel Helcio e a Senah do reverendo Amilton, arguido recentemente no Senado, entre outras organizações emersas das especulações da CPI, são gemas interconectáveis do mesmo rizoma.

Investigado paralelamente em inquéritos sobre fake news, o IFB é classificado por senadores da CPI como uma “ONG negacionista”. Foram exibidos materiais que atestam sua vocação de veiculador contumaz de conteúdos contrários a medidas preventivas durante a pandemia.

Registrado em 2020, o Força Brasil faz divulgar que sua missão é “atuar como vetor de poder conservador”, para “fazer frente à hegemonia da esquerda como participante do poder”.

Para conquistar o poder que tanto persegue, prevê em seu estatuto a possibilidade de firmar convênios com entidades públicas, inclusive com transferência de recursos.

No sentido de compreender como a direita radical contemporânea se mobiliza e cresce no Brasil, é preciso olhar para pessoas e grupos, como constroem alianças e financiam suas atividades.

Na insurreição do Capitólio, nos Estados Unidos, após a derrota de Trump, mas também em países como Áustria, Hungria e Polônia, investigou-se que a reprodução de comportamentos reacionários está ligada à disseminação de fake news enquanto método e à proximidade orgânica de entidades civis com governos extremistas que elas ajudaram a eleger.

Legitimadas, essas organizações passam a atuar em sites e redes, angariando apoio público cada vez mais amplo. A arrecadação de fundos é impulsionada pela Internet, por doações e engajamento de empresários militantes.

Mas é durante o governo alinhado, com trânsito livre em instâncias oficiais e ministérios, que acessam convênios e diversificam negócios, essenciais para financiar notícias falsas e preparar a máquina de propaganda da próxima disputa eleitoral.

Sob Bolsonaro, a combinação de ideologia e ameaças construiu um conjunto de ideias – cloroquina, urnas violadas etc. – que pretende impor uma interpretação particular de mundo.

Em mensagem nas redes sociais, atribuída pela CPI ao IFB e a Helcio Bruno, lê-se que “fake news é toda notícia que não interessa ao establishment”.

Assim, são combatidas as evidências produzidas pelos cientistas, os fatos verificados pelos jornalistas, a investigação de uma CPI.

Da mesma forma , são enaltecidos os tanques na rua e uma sociedade expurgada de democracia.

Tudo o que sabemos sobre:

CPI da Covid

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.