Como a CPI da Covid vai comprovar o ‘não feito’?

Como a CPI da Covid vai comprovar o ‘não feito’?

Mário Scheffer

03 de junho de 2021 | 18h13

O roteiro do relator da CPI da Covid, Renan Calheiros, deixou hesitações sobre as linhas de investigação prioritárias e sobre o lugar onde se quer chegar.

Não é tão simples investigar as omissões e as brechas de controle de um vírus, por onde já escorreram cerca de meio milhão de vidas.

Nos argumentos dos senadores que deram origem à CPI, o governo Bolsonaro não seguiu orientações científicas, não minimizou perdas e nem protegeu a população. Aglomerações foram incentivadas, medidas de isolamento social boicotadas, e o tratamento inócuo foi pago com dinheiro público. Faltaram vacinas, testes, leitos de UTI, medicamentos para intubação e até oxigênio. Nada foi feito para impedir o colapso do sistema de saúde e a tragédia de Manaus. Ocorreram desvios em Estados e municípios no uso de recursos repassados pela União para ações de prevenção e combate à covid-19.

Renan Calheiros, relator da CPI; Foto: Gabriela Biló/Estadão

Mas como comprovar o “não feito”? Esse é um desafio para a política e para políticos acostumados com infatigáveis rinhas de paróquia.
Por enquanto, as estratégias se concentram em desvendar um gabinete paralelo, em não respostas a e-mails, em recuos na nomeação de cargos. Um atalho que dificilmente conduzirá a consistentes relações entre causa e efeito.

No plano de trabalho de Renan constam requerimentos traduzidos em objetivos de apuração. A relatoria, escreveu o senador, funciona “como um sistematizador de ideias”.

Documento

O roteiro prevê uma lista com seis linhas gerais de averiguação e 19 ações ou fatos específicos a serem investigados: da disseminação da variante P1 do vírus ao TrateCov (o aplicativo pró-cloroquina do Ministério da Saúde), passando pela falta de vacinas, testes e respiradores; da disseminação da covid junto às populações indígenas até falhas no auxílio emergencial para desempregados.

Entretanto, as 15 sessões públicas da CPI avançaram poucas respostas sobre esse sortido rol de intenções. Até o dia 2 de junho, os gigabytes de 613 documentos, em resposta a 234 pedidos de informação, ainda mergulhavam a CPI numa enrascada inevitável.

Com prazo de validade, a CPI começa a revelar suas limitações. A agenda anunciada para as próximas semanas tem ares mais de audiência pública do que de inquérito. O que está por vir cria um novo subtexto: a CPI, ao trazer agora governadores e especialistas, já deu o que tinha que dar e não precisa mais sequer parecer que um dia pretendeu um roteiro ecumênico e metódico de investigação?

No cinema, um roteiro pretensioso pode resultar em filme confuso e aborrecido. A CPI precisa alinhavar seu plano daqui até a leitura cerimonial do relatório final.

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