Um bunker na guerra contra a covid

Mário Scheffer

27 de maio de 2021 | 17h30

“Só temos um único cliente, o Ministério da Saúde ”, destacou o diretor do Butantan, Dimas Covas, logo no início do seu depoimento à CPI, em referência à prioridade que o Instituto sempre deu ao fornecimento de imunizantes para o governo federal e o SUS.

“Procura outro para pagar sua vacina aí”, rebelou-se o cliente, no caso o presidente Bolsonaro, em um dos vídeos que a CPI passou a exibir nas sessões, o que tem funcionado como uma espécie de acareação não procedimental.

“Eu vou pegar esse chinês pelo pescoço, ele está falando com um cliente de 2,5 bilhões de reais”, bateu à mesa o governador João Doria, irritado com atrasos da empresa Sinovac, em áudio antigo requentado pela estratégia de senadores governistas.

O Butantan certamente vai ser lembrado como um bunker da guerra contra a covid no Brasil, mas à CPI seu diretor quis mostrar o quanto o laboratório paulista esteve vulnerável aos projéteis lançados por Bolsonaro contra a China, a eficácia da Coronavac e a contratação da “vacina do Doria” pelo Ministério da Saúde.

Foi bom ouvir Dimas Covas, um cientista certo no lugar e momento certos. Ele apresentou com clareza a importância das parcerias com a China, um país que é “potência na área de biotecnologia” e que vem irrigando a vacinação contra o coronavírus abaixo do Equador.

Dimas nos traz soluções implícitas, distintas daquelas adotadas pelos países ricos. A atual divisão mundial das vacinas, entre produtores europeus e americanos, de um lado, e os asiáticos, de outro, poderia se estender para vários produtos imunobiológicos no futuro. Não foi mencionado, mas a ideia de consórcios internacionais que promovam o desenvolvimento científico e tecnológico em redes, e a condição de bens públicos atribuída às vacinas e aos medicamentos complementam uma perspectiva promissora.

Foram afirmados os esforços e a excelência do Butantan, que, aos 120 anos, se posicionou estrategicamente para a realização de estudos clínicos em fases iniciais e tem capacidade de expandir a produção de vacinas para sistemas públicos de saúde.

Contra a covid-19 vimos que a corrida se dá em duas raias paralelas. O incremento de doses pode continuar mediante a importação de maior volume do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) e, posteriormente, haverá ou não a apropriação, pelo Butantan, da tecnologia da base celular da Coronavac. E, na outra pista, corre o desenvolvimento da Butanvac, anunciada como a primeira vacina brasileira, notícia que suscitou polêmicas. Um imunizante que depende de componentes patenteados nos Estados Unidos seria autenticamente nacional?

A CPI se concentra na contabilidade de quantas doses de vacinas o governo federal, por inação e boicote, subtraiu do país. Se, como dizem os ditados, “a necessidade é a mãe da invenção” e “tecnologia gera tecnologia”, nos falta saber como e quando teremos mais autonomia na produção de insumos essenciais para o SUS. Ou como iremos financiar nossas pesquisas e nos colocar nos debates internacionais sobre patentes e desigualdades de acesso a vacinas. Mas aí já é querer solidez demais na atmosfera nebulosa da CPI.

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