A mão oculta da PF volta a assombrar a CPI da Covid

A mão oculta da PF volta a assombrar a CPI da Covid

Mário Scheffer

04 de agosto de 2021 | 22h24

O presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz – FOTO: Adriano Machado/Reuters

A mão oculta da Polícia Federal (PF) voltou a assombrar a CPI. Em julho, senadores pressentiram um ardil para a conquista do direito de ficar em silêncio na comissão. O presidente da CPI, Omar Aziz, aventou, na ocasião, que testemunhas com potencial de comprometer o governo eram ouvidas na véspera pela PF, com o propósito de passarem à condição de investigados.

Agora, senadores arranham ainda mais o mito da PF republicana, ao acusarem o governo de usar a corporação, não só para obstruir, mas para intimidar os trabalhos da CPI, com abertura de inquérito que pode ser um exercício de dissimulação. Enquanto é cobrada por corte em trecho de gravação que enviou ao Senado, em que o ex-ministro Pazuello cita Bolsonaro e o deputado Luis Miranda, a própria PF quer investigar o vazamento do vídeo, por conter depoimento sigiloso.

Enquanto isso, a fita segue na transmissão ao vivo da TV Senado. Tal como um desfile militar, em depoimentos anteriores da CPI as informações marcharam ordenadamente em direção a Marcelo Blanco, testemunha ouvida na comissão nesta quarta-feira.

Linha investigativa à qual a CPI tem atribuído especial ênfase, há ainda muitas perguntas a serem respondidas sobre o famigerado jantar em um shopping de Brasília, no restaurante Vasto, estabelecimento que tem como uma de suas atrações culinárias a “pescada fumegante”. Fora do cardápio, prato mais quente incluía a suposta oferta de pagamento de propina na aquisição de vacinas.
Mas o tenente-coronel da reserva, ex-diretor substituto do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, não acrescentou nada ao “quem é quem” nas intermediações suspeitas.

Ficamos sabendo que Blanco teve um “insight”, que o fez levar Dominghetti, o intermediário da Davati, para o jantar com Roberto Dias, o responsável pelas compras da Saúde.

Um encontro casual, uma trivialidade da vida de quem trocou o público pelo privado na capital da República cheia de pontes que ligam os dois setores.

Antes de sair do cargo público, Blanco fora convidado para trabalhar na VTCLog, empresa que armazena e transporta insumos, também pertencente à órbita de ex-servidores militares.

“Na minha cabeça, não construí como opção, em nenhum momento, negociar com o público”, ressaltou, para em seguida concluir que abriu uma empresa com a intenção de “construir uma nova atividade laboral”, com o objetivo de “construção de um modelo de negócio no meio privado”.

O construtor de carreira própria saiu-se bem, perspectiva diferente da época de sua nomeação no Ministério da Saúde, quando encarou o cargo comissionado como “missão e esforço de guerra”.

Em tempos passados, para alguns, ser militar era uma espécie de estágio de preparação para uma trajetória mais promissora fora dos quartéis. Marcelo Blanco trouxe de volta a acepção e as práticas de passar pelo público como uma espécie de trainee. No Ministério da Saúde, aprendeu o suficiente para virar empresário do ramo.

Senadores acusaram uma “coincidência”. Assim que foi legalizada a compra de vacinas pelo setor privado, houve alteração da razão social da pessoa jurídica pertencente a Blanco, que passou de promotora de educação financeira a empresa com foco na saúde.

Numa associação militar informal, Blanco teria chegado à Saúde pelas mãos de um amigo coronel, que o indicou ao general Pazuello. Ele disse desconhecer os motivos de sua exoneração do Ministério, em janeiro de 2021, admitiu “relação amistosa” com Roberto Dias e afirmou que Dominguetti é quem o procurava, mesmo confrontado com 64 ligações de celular que teria feito para o policial militar vendedor da Davati.

A escolha do Ministério da Saúde como um centro de treinamento militar foi um erro crasso. A pandemia tem sido um teste que reprova governos e apoiadores que subvertem a ordem: numa crise sanitária, a vida da população deve vir antes das autopromoções.

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