A CPI da Covid e o Pacto do Diabo do professor Moorhouse

A CPI da Covid e o Pacto do Diabo do professor Moorhouse

Mário Scheffer

26 de agosto de 2021 | 18h46

O empresário José Ricardo Santana em depoimento à CPI da Covid – FOTO: Gabriela Biló/Estadão

Pouco conhecida ou timidamente mencionada na literatura sobre as Grandes Guerras, a chocante aliança de Stalin com Hitler, entre 1939 e 1941, ganhou recentemente uma obra definitiva, história recuperada por Roger Moorhouse, em O Pacto do Diabo.

Não são de hoje e nem só da política brasileira os conluios devastadores do bem estar coletivo, os tratados de não agressão constrangedores, as acrobacias humilhantes que transformam opositores em aliados fraternos.

Aqueles que protagonizam tais aproximações costumam forjar interpretações, de que não há nada de incoerente nisso, pois acordos políticos são impostos pelas circunstâncias.

Quem imagina a CPI da Covid apenas como um bunker de oposição a Bolsonaro, fulcro do combate às barbaridades cometidas pelo governo federal durante a pandemia, assusta-se ao espiar fora do cercadinho transmitido pela TV Senado.

A maioria dos parlamentares ativos da CPI e suas siglas partidárias votaram a favor da recondução de Augusto Aras na PGR, que obteve apenas 10 votos contrários de senadores em Plenário.

Os mesmos fatos apurados hoje pela CPI, que configuram crime de saúde pública, foram diversas vezes representados à PGR. Omisso na fiscalização constitucional da Presidência da República, Aras não só nunca ofereceu denúncia ao STF, como também concentrou esforços para investigar governadores ou defender a flexibilização do uso de máscaras, duas das pautas caras ao governo.

Em outro encontro na fronteira do estranhamento, senadores guerreiros da CPI e seus partidos entraram publicamente nesta semana em campanha a favor do nome de André Mendonça, da AGU, à vaga de ministro do STF.

O ex-ministro da Justiça já defendeu a abertura de cultos e igrejas durante picos epidêmicos e evocou a lei de Segurança Nacional para investigar jornalistas críticos à condução de Bolsonaro na pandemia.

O apoio que recebeu de expoentes da CPI pode ser determinante, pois, sem data de sabatina, Mendonça se vê agora ameaçado por outro candidato ao STF, Humberto Martins, do STJ.

De volta ao cercadinho, a CPI ouviu, nesta quinta-feira, 26, o empresário José Ricardo Santana.

Desmascarado por documentos e mensagens, entre silêncio incriminador e respostas desarrazoadas, Santana é mais um de utilidade acessória no inquérito das vacinas.

Da sessão que parece ter saído da antiga Caras, a revista de futilidades dos aspirantes a ricos e famosos, soubemos que foi voluntário o trabalho do depoente no Ministério da Saúde, onde atuou sem receber por ‘umas cinco semanas’, e que foi social o jantar no qual esteve com outros denunciados no caso da suposta propina de US$ 1 por dose de imunizante. Ouvimos também que ele é amigo de lobistas, circulou pela Índia, uma cortesia da Precisa Medicamentos, e frequentou a casa de advogada palaciana.

Já a trajetória profissional recente de Santana é exemplar de outro fenômeno. Ao largar sua função na Anvisa, de secretário executivo da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, e migrar para a intermediação privada de vacinas, ele aderiu à chamada “porta giratória”, que consiste na troca de papéis entre reguladores públicos, de um lado, e mercados regulados, de outro.

Espécie de corrupção, essa praga corrói a integridade das instituições públicas e promove desvios que prejudicam aspirações mais nobres da população.

Sem fugir de sua alçada, a CPI deveria propor legislação com critérios técnicos mais rigorosos na escolha de executivos de agências regulamentadoras e maior transparência na relação de ex-funcionários públicos com o setor privado da saúde no Brasil.

Já quase entrando em setembro, no mesmo dia de oitiva em assunto batido, a CPI incluiu um produtor de ivermectina na lista de investigados, recorreu de novo ao STF para convocar governadores e quer introduzir fatos novos, como o fretamento de aviões pelo governo para importação mal sucedida de vacinas da Índia.

No final do seu livro, o professor Moorhouse conclui que o Pacto do Diabo, feito de detalhes, não pode permanecer na sombra , ser esquecido ou virar tabu, pois é uma peça essencial da narrativa.

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