A CPI abocanhou a isca das reações calculadas

Mário Scheffer

02 de junho de 2021 | 17h30

O grande sanitarista Vital Brazil, estudioso das serpentes peçonhentas, fez vibrar a plateia de uma conferência médica, em 1915, ao exibir o filme da luta de uma muçurana (conhecida como cobra-do-bem) prestes a devorar uma jararaca.

A dinâmica em que cobra come cobra ajuda a compreender a CPI da Covid, uma arena política complexa e incerta. É preciso forçar nosso juízo para contemplar o fenômeno por inteiro, mas também as contradições dentro dele, a aparência do que acontece abaixo da superfície, e o colapso de narrativas que, de lineares, nada tinham.

Nesta quarta-feira, uma ação da PF, que investiga possível corrupção na montagem de um hospital de campanha para covid, alvejou o governador do Amazonas, aliado do presidente da CPI, pouco antes do início dos trabalhos da comissão. Quase ao mesmo tempo, na saída do Palácio da Alvorada, Bolsonaro vociferava para apoiadores: “a CPI do Patifão. O presidente e o relator já disseram que não vão apurar desvios de recursos”.

Enquanto a ministra Rosa Weber, do STF, não decide sobre a constitucionalidade da convocação de governadores para depor no Senado – ela é relatora de uma ação contra a decisão – a CPI abocanhou a isca das reações calculadas. Foi anunciada a antecipação do depoimento do governador do Amazonas, que vai inaugurar nova fase de uma CPI que corre o risco de ser sufocada pela estratégia da bancada governista de tentar estadualizar responsabilidades e municipalizar malfeitos.

Voltemos a Vital Brazil. Na virada do século XIX para o século XX o cientista combateu epidemias junto com Oswaldo Cruz, Emílio Ribas, Adolfo Lutz e Carlos Chagas. Naquela época, doenças como a febre amarela, cólera, varíola e peste bubônica foram controladas numa lógica brutalmente simples: 1) colocar os melhores sanitaristas no comando, 2) adotar a ciência como valor inegociável e 3) prover recursos e estruturas excepcionais de coordenação.

O depoimento da médica Luana Araújo, convocada-surpresa da CPI, dispensada pelo governo enquanto se aquecia para um cargo no Ministério da Saúde, é uma “ferramenta” – termo que ela usou várias vezes para se referir a políticas, programas e modelos de estudos – para abrir uma nova fresta de apuração da CPI.

“Quem a indicou para o doutor Queiroga? Qual o motivo da saída da senhora?” Sem responder, a depoente antecipou a arguição do ministro da Saúde reconvocado.

Mas outro ponto a ser explorado é a espantosa inutilidade de estruturas burocráticas criadas por Bolsonaro. A maioria das resposta bem-sucedidas à pandemia no mundo, sobretudo nas federações, requereu imediatas estruturas centrais de comando e controle, e muita coordenação dentro do governo federal e entre esferas nacional e subnacionais.

A Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19, que abrigaria doutora Luana, foi decretada pelo presidente da República em maio, mais de um ano depois do início da pandemia. Antes disso, em 2020, para nada serviram o Comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento dos Impactos da Covid-19, e o Grupo Executivo Interministerial de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional.

Por fim, a sessão com Luana Araújo trouxe roteiro que se repete: a técnica (“não pertenço ao mundo de vocês, não sou um ser da política”) aceita um cargo, independente de quem governa (“para contribuir com o Brasil”), mas é dispensada porque deixou rastros de lucidez (tratar com cloroquina é “neocurandeirismo”, havia escrito em rede social).

Como também ensinou Vital Brazil, não é tão fácil entrar para a História.

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