A ciência contra o maior crime de saúde pública da história brasileira

Mário Scheffer

11 de junho de 2021 | 19h20

A lembrança do relator para o fato de que, nos últimos 30 dias, enquanto corre a CPI, mais de uma morte por covid é registrada a cada minuto no País, guarda um aspecto perturbador da natureza da comissão. A apuração sobre desmandos de um passado recente visa convencer a Justiça a proferir condenações no futuro mas pouco contribui para interditar a epidemia sem governo do presente.

A CPI anunciou, nesta sexta-feira, que testemunhas com sigilos já quebrados deverão passar à condição de investigados, enquanto Bolsonaro deu marcha a mais uma campanha particular contra o uso de máscaras.

O diversionismo do presidente e o endurecimento de senadores desconjuntaram no tempo as exposições didáticas dos primeiros especialistas convidados da CPI, Cláudio Maierovitch e Natalia Pasternak.

Enfáticos em denunciar as “evidências anedóticas” pró-cloroquina e a opção desumana pela imunidade coletiva (“fomos tratados como animais”), acanhados ao comentar, a pedido do relator, a reputação de nome por nome dos integrantes do “gabinete paralelo”, Cláudio e Natalia levaram à CPI o valor da ciência, negado, e a confiança no SUS, desperdiçada.

A pandemia renovou, mas também abalou a palavra de especialistas. Em países que passaram por crises profundas, como Estados Unidos e Inglaterra, tensos episódios ocorreram entre governos, opinião pública e experts que chegaram a ser tragados por polêmicas.

As divergências se tornam mais visíveis quando diferentes grupos de especialistas reivindicam realizar a mesma tarefa. Físicos e epidemiologistas disputam em público modelos capazes de orientar políticas de combate à covid. Cientistas das pesquisas básicas passam a prescrever abordagens preventivas e a definir níveis de risco populacional. Influenciadores, tanto os alarmistas quanto os tranquilizadores, pedem a última palavra, do retorno às aulas presenciais à ordem correta da fila de vacinação.

Predições que confundem, divulgação prévia de pesquisas ainda não validadas, recomendações frágeis e provisórias, resultados que se chocam, próprios do processo científico, agora servem para alimentar notícias falsas, provocar paixões e injúrias, e geram crise de confiança da população em relação aos especialistas e aos órgãos reguladores.

Foi dito na CPI que achismos e ideologias guiam parte do povo. Mas querer acreditar ou não suportar o desconhecido podem também conduzir ao irracional, o que permite que multidões se dediquem de corpo e alma a líderes da pior espécie, criando, assim, uma forte unidade em torno de uma “ciência politizada”. Organizações científicas, mais do que especialistas individualmente prontos para apontar o dedo às redes sociais e para dizer o que fazer e em que acreditar, deveriam entrar em campo e contribuir para uma clara narrativa comum do conhecimento disponível, para um consenso coletivamente acionável.

Nas próximas semanas, há previsão de a CPI receber pesquisadores da saúde coletiva e dos direitos humanos, e há requerimentos aprovados convocando universidades e centros de pesquisa. Que os especialistas e as instituições da ciência possam iluminar a CPI na apuração do maior crime de saúde pública da nossa história.

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