Retorno da comissão será um bom teste para a democracia

Retorno da comissão será um bom teste para a democracia

Mário Scheffer

02 de agosto de 2021 | 05h00

Nos últimos três meses, enquanto transcorria a CPI, mais 150 mil brasileiros morreram de covid, e o País chega a agosto com apenas 25% de adultos completamente vacinados.

Mesmo sob mira do inquérito parlamentar, o governo Bolsonaro foi incapaz de coordenar o controle da transmissão do vírus com a retomada das atividades econômicas, de educação e lazer, situação já experimentada por tantos países.

Renan Calheiros e Randolfe Rodrigues caminham em direção a um cameraman

O relator da CPI, senador Renan Calheiros e o senador Randolfe Rodrigues. Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Graças à CPI, têm-se hoje uma visão retrospectiva das origens da inação federal. Mas isso pouco contribui para reverter a crise sanitária ou para fortalecer o SUS, única trincheira capaz de nos escoltar até a porta de saída da pandemia.

Desliza-se, daí, para contingência de outra natureza. Como não cabe à CPI julgar ou punir, com relatório final previsto para novembro, suas conclusões pedindo indiciamentos e responsabilizações, dirigidas a órgãos de Justiça ou polícia, serão empurradas para 2022.

Esta é uma CPI outsider, de arquitetura e efeitos especiais. Sua popularidade vem da desesperança coletiva, de circunstâncias de vida e morte, de plateia imensa que aspira reparações.
Seus integrantes, até alguns de passado dubitável, pouco afeitos a se opor, seja a qual governo for, caíram bem no papel de investigadores da desordem de Bolsonaro.

Impedida, pelo sucesso que alcançou, de acabar em pizza, a CPI já comprovou o atraso intencional na compra de vacinas e a promoção oficial da cloroquina inútil, expôs ao País bufões da corte que negaram a ciência e bandalhos que tentaram superfaturar a compra de imunizantes.

Instrumento de controle eminentemente político, a comissão não estará, até novembro, imune de mancomunações ou intrigas de bastidores das relações entre os dois poderes.

No histórico do Senado, partidos de coalizão governista comumente usaram CPIs para dominar o governo, formavam maioria na composição e, assim, produziam desfechos cordiais, mediante compensações.

Para o segundo tempo do jogo, o governo escalou um esterilizador, com a missão de fazer a CPI da Covid se parecer mais… com uma CPI.

O novo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, quando ainda apoiava governos petistas, foi, no Senado, craque titular de CPIs chapa-branca, como a da Petrobras e a do Futebol.

Adam Przeworski, intérprete das democracias em crise, argumenta que governos extremistas empenhados no retrocesso, que agem sub-repticiamente, tomam medidas abertamente antidemocráticas ou trazem a velha política para perto de seus ideais.

O retorno da CPI da Covid será um bom teste para nossa democracia.

*PROFESSOR DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP E RESPONSÁVEL PELO BLOG DIÁRIO DA CPI

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