A convergência aos extremos
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A convergência aos extremos

Conexão Eleitoral

18 de outubro de 2016 | 11h24

Marca_DIREITORIO

Por Felipe Oriá*

O Brasil vive um paradoxo. Em um cenário de polarização extrema na política nacional, as eleições locais se mostram como palco da mais cínica apatia política. Após meses de comoção nacional ao redor do impeachment e da lava-jato, em meio a polêmicas como o aumento do judiciário e a PEC 241, o grau de apatia é tal que é difícil lembrar que 18 das 27 capitais terão segundo turno. Principalmente após níveis recordes de abstenções, brancos e nulos.

Moderados, chamados também de indecisos ou até razoáveis, ficaram no meio do caminho. O desempenho pífio da Rede parece ter sido um exemplo de que a “imparcialidade” não é uma estratégia bem aceita nessa era de extremos. O horizonte político nacional parece pouco promissor para quem vislumbra um caminho moderado, evitando radicalismos estéreis.

O começo de uma resposta parece estar no crescente papel das redes sociais como fonte de informação dos brasileiros. Esses novos canais tendem a gerar dinâmicas próprias de formação de opinião. Estudo recente liderado, entre outros, por Cass Sunstein da Universidade de Harvard revelou o que intuitivamente já sabíamos: o Facebook funciona como uma câmara de ressonância das nossas próprias opiniões. Nas redes sociais se fala o que quer, se escuta o que quer e se compartilha (auto)admiração entre curtidas mútuas.

People are silhouetted as they pose with mobile devices in front of a screen projected with a Facebook logo, in this picture illustration taken in Zenica October 29, 2014. REUTERS/Dado Ruvic

Foto: Reprodução Estadão

O efeito dessas câmaras de ressonância tem sido tema frequente no debate público americano devido às eleições presidenciais que se aproximam. O sucesso do candidato republicano Donald Trump é constantemente citado como exemplo do retorno eleitoral do extremismo nas redes sociais. Nesse estado de “vacinação cognitiva” fatos e informações contrárias, ao invés de levarem à desconfirmação ou reavaliação de uma opinião, apenas a reforçam.  No Brasil, as pessoas parecem ainda confundir suas linhas do tempo nas redes sociais com expressões genuínas da opinião pública. O resultado não pode ser outro senão a simplificação e desqualificação do debate, a valorização dos extremos.

Entretanto, essas câmaras de ressonância explicam apenas metade do nosso paradoxo. Isso se deve ao fato de que a clivagem das redes sociais é entrecortada por outra, mais profunda. Num país historicamente dividido, uma estratificação social multifacetada parece estar incorporando mais uma cisão: conectados e desconectados. No Brasil, apenas 50% dos domicílios têm acesso à internet. Logo, enquanto metade do país tende aos círculos de certeza e autoafirmação das redes sociais, a outra permanece na versão analógica da política.

Soma-se a esse distanciamento na forma, a diferença de substância sobre as questões políticas relevantes para conectados e desconectados. Desconectados, população mais pobre e dependente dos serviços municipais, são os principais interessados nas eleições locais. Eles parecem ter dado as costas a esse extremismo, aproximando-se de discursos “antipolíticos”. Essa disparidade reproduz, na política eleitoral, o apartheid social do país. Temos assim a segunda metade do nosso paradoxo de euforia nacional e apatia local.

Completando seu ciclo, nosso paradoxo se retroalimenta. Uma sociedade dividida gera uma política paradoxal e é, em troca, realimentada por ela. Pesquisa recente do Pew Institute, mostrou que a polarização gerada pelas redes sociais tende a se reproduzir na vida off-line. Num Brasil onde os espaços de interação entre classes e grupos sociais se limitam a relações de serviço, podemos esperar que esse padrão aumente ainda mais o fosso entre grupos políticos. Não apenas em termos de suas agendas e valores, mas na própria forma de fazer política.

O Brasil precisa amadurecer. Comecemos por abandonar a esperança de que será a política eleitoral, por si só, que resolverá o drama de uma sociedade dividida. Qualquer solução para o Brasil, mesmo na era digital, passará pela resolução material do apartheid social, que adormece durante o boom, mas volta a se intensificar durante as crises. Caberá a cada brasileiro sair de suas bolhas virtuais e reais, para construir um projeto político nacional.

*Pesquisador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV DIREITO RIO

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