‘Se não fizer a reforma política, será o fim’, diz Vicente Cândido

‘Se não fizer a reforma política, será o fim’, diz Vicente Cândido

Naira Trindade

24 de outubro de 2016 | 05h04

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ENTREVISTA/VICENTE CÂNDIDO (PT-SP)

 

Petista no segundo mandato de deputado federal, Vicente Cândido (SP) tem nas mãos a missão de corrigir os rumos das próximas eleições. Sem a desejada reforma política, é unânime a opinião de congressistas de que estão fadados ao suicídio eleitoral. As doações não são suficientes e os recursos do fundo partidário não conseguem atender as caras campanhas. Com a proposta da mudança nas mãos da oposição, a Câmara espera votar até maio do ano que vem a nova reforma política. “Não dá para imaginar eleições em 2018 sem essa reforma”, diz.

Eleições municipais
As eleições aconteceram nesse clima de confusão política e econômica. Foi a pior campanha da história.

Reforma política
A reforma política tem de sair. A situação é parecida com a da reforma tributária. Todo mundo sabe que tem de fazer, mas os problemas começam na hora de apresentar as propostas.

Ritmo da comissão
Será instalada na terça-feira e vamos apresentar o plano de trabalho depois da eleição. O prazo é até maio do ano que vem, no máximo.

Tentativas anteriores
Já foi feita uma minirreforma no passado. Os três últimos presidentes da Casa tentaram fazer. A vez do Eduardo Cunha foi a mais tumultuada, porque ele agiu sob pressão e porque havia questões polêmicas, como a da reeleição. Acho que a maior novidade de todo esse processo foi o fim do financiamento empresarial.

Reformas
Também estou na comissão da reforma tributária. Sou relator. São duas questões nada tranquilas para resolver. Quem conseguir resolve o problema do Brasil. Não fazer a reforma política é o fim. Não dá nem para imaginar a eleição em 2018 do jeito que está hoje.

Lava Jato
Sem a Lava Jato, não despertaria tanto interesse fazer a reforma agora. O Brasil será outro depois da Operação Lava Jato. Espero que para melhor.

Sistema de votação
Minha proposta é a de lista fechada, mas não existe modelo perfeito no mundo. Surgiram outras ideias: lista mista, distrital mista, distrital. O fato é que, ou mexemos no sistema de votação, ou o financiamento público será prejudicado. O problema é que o financiamento público ainda não tem apoio expressivo.

Financiamento privado
O cidadão não quer doar porque há descrédito com a política. E há constrangimento no financiamento empresarial, que nunca foi tranquilo: são poucas as empresas que doam, são os fornecedores do Estado que doam. Hoje há perseguição em cima disso, delação para lá e para cá.

Financiamento público
O financiamento público só é bom até a próxima crise. O caminho é deixar uma abertura para contribuição privada de cidadãos, com limite, inclusive para os candidatos. Senão, o candidato rico compra a eleição e o pobre fica a ver navios.

Prévias
Quero regulamentar as prévias. Hoje pode tudo, sem regulamentação. Dois meses de prévias são razoáveis para abordar financiamento, sistema de votação e lei orgânica dos partidos.

Insatisfação no PT
Vejo três blocos de inquietação no partido: um que acredita no PT e quer renovação, que é o meu caso; os que querem ir embora; e tem a turma do pragmatismo, que faz contas e diz “o PT não me ajuda”. Esses são os piores, oportunistas.

Futuro do PT
O partido está chumbado, mas ainda tem grife. Há como se recuperar. As bandeiras do PT, de luta dos trabalhadores, índios, pretos, nenhuma outra sigla tem condição de defender. Se o PT pedir desculpas para a sociedade, acho que é um partido viável no poder.

Nova direção do PT
Se deixar, Rui Falcão sai agora. Até gosto do Haddad. Se ele tiver paciência para isso, há chance, mas tem de aguentar, dar e tomar cotovelada. Não acredito que seja o perfil dele. Prefiro Lula ou Lindbergh, que vibram, se empolgam, a alguém mais burocrata. Vamos renovar sem medo.

ENTREVISTA A NAIRA TRINDADE

Ilustração: Kleber Sales

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