“Odebrecht falou que eu ia quebrar a cara”, diz Paulo Roberto Costa ao TSE

Rafael Moraes Moura

31 Outubro 2016 | 16h13

 

 

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Foto: Dida Sampaio/Estadão

 

Em depoimento prestado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ex-diretor de abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa afirmou que chamou empreiteiras que não integravam um esquema de cartel para participar de licitações na estatal, mas foi alertado por executivos da Odebrecht de que ia “quebrar a cara”. O depoimento de Costa foi feito no âmbito do processo em tramitação na Corte Eleitoral que pode levar à cassação da chapa vitoriosa de Dilma Rousseff e Michel Temer na eleição de 2014.

 

Costa reafirmou ao ministro relator do processo, Herman Benjamin, a existência de empreiteiras que se reuniam e faziam entre si a divisão das obras da Petrobrás, entre gasodutos, plataformas, refinarias – o grupo ficou conhecido como “Clube das Empreiteiras”, formado por Odebrecht, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, entre outras.

 

“As empresas do cartel, nós sabíamos que pagavam propina. E, quando você chamava para as grandes obras aquelas empresas, já sabia que ia ter pagamento”, disse o ex-diretor de abastecimento, um dos delatores da Operação Lava Jato.

 

O ex-diretor da Petrobrás destacou no depoimento que por volta de 2009 ou 2010, sem estar satisfeito com o que estava acontecendo na estatal, resolveu chamar empresas de menor porte para participar de algumas licitações, principalmente no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro.

 

“E até pra dar uma balançada, quebrar um pouco esse cartel, porque eu não tava satisfeito com isso. E chamei algumas empresas que participaram, e eu fui procurado pelo pessoal da Odebrecht, onde eles me falaram que eu ia quebrar a cara, porque essas empresas não iam dar conta do serviço”, disse Costa.

 

“E, realmente, em alguns contratos, eu quebrei a cara, porque as empresas não deram conta e, em outros contratos, as empresas fizeram o trabalho. Às vezes demorando mais, com mais dificuldade, mas fizeram”, completou o engenheiro.

 

Uma comitiva da Odebrecht desembarcou em Brasília no início deste mês para negociar aquela que pode se tornar a mais explosiva delação premiada da Operação Lava Jato. A empreiteira negocia um acordo com a Procuradoria-Geral da República para que o executivo Marcelo Odebrecht e cerca de outras 50 pessoas confessem seus crimes em troca de redução nas penas.

 

O ex-diretor da Petrobrás também reiterou ao TSE que a atuação do “Clube das Empreiteiras” não se limitava ao ramo do petróleo, ocorrendo em licitações de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. “Isso acontecia no Brasil inteiro, em todas as obras, porque as empresas são as mesmas e o processo era o mesmo”, comentou Costa.

 

DOAÇÃO. Em outro depoimento ao TSE, o ex-presidente da Camargo Corrêa Dalton Avancini afirmou que o pagamento de propina fazia parte dos negócios com a Petrobrás.

 

“Era um compromisso, quer dizer, que a empresa tinha e isso era um compromisso existente, que deveria ser mantido. Ou seja, por ter os contratos e por estar participando desses negócios, nós tínhamos uma obrigação, né, que fazia parte do negócio e tinha que ser cumprida”, afirmou Avancini.

 

Segundo Avancini, o ex-diretor de serviços da Petrobrás Renato Duque colocava “de forma sutil” que, caso o acordo não fosse cumprido, haveria “algum tipo de impacto” nos negócios.