‘O Brasil esperava um Plano Marshall e recebeu um Plano Madero’, diz Aloizio Mercadante

‘O Brasil esperava um Plano Marshall e recebeu um Plano Madero’, diz Aloizio Mercadante

Marianna Holanda

26 de março de 2020 | 10h33

Aloizio Mercadante, ex-ministro da Casa Civil do PT. Foto: Dida Sampaio

O presidente Jair Bolsonaro é prisioneiro do “terraplanismo sanitário” e o governo demora em apresentar respostas à crise causada pelo covid-19. É esse o diagnóstico feito pelo ex-ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, do momento em que o País passa.

“O Brasil esperava um Plano Marshall e recebeu um Plano Madero. O governo não coordena, não fez um plano estratégico e fica criando tensões descabidas com prefeitos e governadores”, disse à Coluna.

A referência é a Junior Durski, dono da cadeia de restaurantes Madero. Recentemente, o empresário alertou para os danos econômicos da quarentena, apesar do risco de morte para a população.

Mercadante assumiu recentemente a Fundação Perseu Abramo, braço teórico do PT, e sua primeira grande missão foi criar um plano de combate à crise sanitária e econômica causada pelo coronavírus.

Veja abaixo entrevista com o ex-ministro:

O que o sr achou do pronunciamento do presidente?
Para uma grande parcela da população, com o pronunciamento somado às atitudes que ele já vinha tomando, como o chamado às manifestações de rua e ataques aos governadores , Congresso e STF, Bolsonaro acabou.

Recentemente, foram protocolados pedidos de impeachment contra o presidente. Como o sr vê isso?
Neste momento, o Congresso só pode funcionar de forma remota e só votará emergências e pautas consensuais. Por isto, os pedidos de impeachment estão de quarentena. Mas seguramente voltarão com muita força depois desta pandemia. Ele precisava ter mudado, respeitado a medicina e a ciência, participar do esforço de ONU, OMS e centenas de países para combater a pandemia. Mas ele continua prisioneiro do terraplanismo sanitário. Ele não mudou, e o Brasil vai querer mudar o governo. Nesse momento nossa preocupação é dar resposta a emergência sanitária e à vida das pessoas.

O Ministério da Saúde tem sido muito elogiado. Não acha que está tendo boa atuação?
O governo não tem diagnóstico, centralidade, subestimou a crise. Tardiamente a Saúde passou a se alinhar com o diagnóstico da medicina. Minha crítica ao (ministro da Saúde, Luiz Henrique) Mandetta é ao que ele vinha fazendo antes. Desmontando o Mais Médicos, a medicina da família… A precarização de alguns instrumentos que são vitais. Esse visão do Estado mínimo está completamente contra a parede. Os neoliberais estão virando keynesianos na calamidade. Como podemos responder a uma crise como essa sem BNDES, Caixa e Banco do Brasil? Quem vai organizar o seguro social para atender à população? O que aconteceria se tivéssemos privatizado a saúde? Quem está atendendo na ponta são os profissionais do SUS, são servidores públicos, que ontem eram tratados como parasitas. O Brasil esperava um Plano Marshall e recebeu um Plano Madero. O governo não coordena, não fez um plano estratégico, fica criando tensões descabidas com prefeitos e governadores. É fundamental que o governo tenha, por exemplo, um plano logístico de abastecimento. Não pode fazer estoque de determinado produto, tem que ter preço tabelado de outros, como, por exemplo, álcool em gel.

Quais soluções vocês propõem?
Com esse nível de desigualdade e pobreza, temos um imenso desafio para o isolamento social. Não tem como propor isolamento nas comunidades, periferias, favelas sem acolhimento. Garantir uma renda mínima para as famílias. Pelo critério do Cadastro Único, é possível dar o benefício de forma quase imediata: um salário mínimo.

Nossa segunda diretriz é o fortalecimento do SUS. Não pode ter restrição orçamentária. Tem que construir leitos improvisados, ampliar UTI, ventiladores, equipes de saúde da família, para poder dar uma resposta eficiente. Tem que construir leitos improvisados, ampliar UTI, ventiladores, equipes de saúde da família, para poder dar uma resposta eficiente.

A nossa terceira resposta é ajudar às empresas, mas com algumas medidas para não repetir a crise de  2009, quando o Banco Central injetou muito dinheiro, mas não havia restrição de pagamento de bônus pros Executivos, nem limite dos salários. Para garantir que os recursos cheguem na ponta, sugerimos essas restrições.

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