Fundação Palmares usa pandemia como motivo para não comemorar mês da consciência negra

Fundação Palmares usa pandemia como motivo para não comemorar mês da consciência negra

Mariana Haubert

13 de novembro de 2020 | 16h50

Sérgio Camargo, presidente da Fundação Cultural Palmares Foto: Gabriela Bilo/Estadão

A ausência de ações da Fundação Palmares para o mês da consciência negra foi justificada com um argumento que vai de encontro às convicções do próprio presidente da entidade, Sérgio Camargo. Em documento, a fundação afirma que a pandemia do coronavírus ensejou a necessidade de quarentena e isolamento social. Camargo, porém, disse em março, que esse tipo de medida era “a maior imbecilidade da história da humanidade”. Anteriormente, ele também já havia dito que a fundação não faria nada pelo Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro.

A justificativa está presente em uma resposta a um pedido de informação feita pelo advogado Marivaldo Pereira. No texto, a fundação cita a legislação brasileira que determinou medidas de combate à covid-19 e relembra recomendações da Organização Mundial da Saúde.

A entidade informa apenas que irá divulgar e premiar, neste mês, os vencedores do único edital lançado neste ano, “A arte no quilombo”, que selecionou cem iniciativas da cultura afro-brasileira. Nesta quinta, Camargo assinou uma portaria para “moralizar” a escolha de personalidades notáveis negras.

O documento foi apensado a uma representação apresentada por Pereira ao Ministério Público Federal em 6 de novembro, em que pede a exoneração de Camargo da presidência da Palmares por improbidade administrativa. O documento é assinado também pela jornalista Ana Claudia Silva Mielke.

Ambos decidiram usar a mesma estratégia adotada pelo próprio MPF em relação a Ricardo Salles. Em julho, o órgão pediu o afastamento do ministro do Meio Ambiente por considerá-lo responsável pelo desmonte do sistema de proteção ambiental do País, que causou aumento do desmatamento, das queimadas, dos garimpos ilegais e da grilagem de terras.

“Resolvemos fazer esse paralelo, aproveitando o mês da consciência negra, porque identificamos um desmonte da Palmares. Mesmo antes da sua posse, ele já colocava uma série de posicionamentos contrários aos objetivos da fundação, com posturas negacionistas e de perseguição a lideranças de religiões afro e lideranças negras”, afirmou Pereira.

De acordo com documentos da entidade obtidos por Pereira, a Palmares executou, até 30 de setembro, apenas 47,5% de todo o seu orçamento para 2020, o que representa R% 5,3 milhões. Desde 2012, as execuções ficaram sempre acima de 70%.

A própria fundação admite que nem Camargo, nem nenhuma outra autoridade do órgão tiveram alguma agenda em 2019 e 2020 com representantes dos povos tradicionais de terreiros e de reuniões da agenda social quilombola.

A fundação lista também como uma das principais atividades do ano a mudança de sua sede para um prédio cedido pela EBC, cuja economia seria de R$ 2 milhões por ano. O imóvel, no entanto, apresenta diversos problemas e a mudança é alvo de críticas de servidores do órgão.

A Coluna tentou entrar em contato com a Fundação Palmares, mas até o momento não obteve resposta.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.