Estrago institucional pode afetar a reforma

Estrago institucional pode afetar a reforma

Coluna do Estadão

22 de março de 2019 | 05h00

Ex-presidente Michel Temer foi preso nesta quinta, 21, em São Paulo. FOTO: AFP

Qualquer que seja a decisão sobre o recurso do ex-presidente Michel Temer, o sentimento no mundo político é de que o estrago institucional já foi feito pela Lava Jato. Se a prisão for revogada nas cortes superiores, ficará a impressão de que os “traidores do povo” outra vez serão os altos magistrados em conluio com a “velha política” e, assim, a escalada da crise seguirá turbinada. Por isso, enquanto bolsonaristas comemoravam as prisões, líderes avaliavam não haver mais clima favorável para a reforma da Previdência e o pacote de Sérgio Moro.

Doeu. Além de uma bancada ainda relevante, o MDB possuiu parlamentares influentes no Congresso e Temer, que já presidiu a Câmara e o País, mantém bom trânsito em várias bancadas.

Audacioso. Um líder observa que nem mesmo Sérgio Moro teve coragem de deter o ex-presidente Lula em prisão preventiva. O petista só foi para o cárcere depois da condenação em segunda instância.

Troco. Dentro do MDB, a sensação ontem era de que o partido sai ainda mais desgastado do episódio, mas, se os bolsonaristas continuarem comemorando as prisões, poderão também perder com a operação autorizada por Marcelo Bretas. Correm o risco de machucar o único parlamentar capaz de levar adiante a reforma da Previdência hoje na Câmara: Rodrigo Maia, genro de Moreira Franco.

Ponto de vista. “A prisão de Temer pode até atrapalhar a reforma da Previdência , mas mostra que a Lava Jato é apartidária e a Justiça é para todos”, diz o deputado Vinícius Poit (Novo-SP).

Troca. Antes da prisão de Temer já estava em curso um movimento de renovação no MDB. O ex-senador Romero Jucá anunciou à Executiva expandida que não tentará a reeleição na presidência do partido. Não houve grande comoção.

Muita calma… Na reunião dos emedebistas, o governador do DF, Ibaneis Rocha, fez um duro discurso dizendo que o partido precisava se renovar. Pediu ainda a expulsão de Eduardo Cunha e Geddel Vieira Lima, ambos presos na Lava Jato, de quem ele teria “vergonha” de ser correligionário.

… nessa hora. Nem todos receberam bem as duras palavras contra os dois emedebistas presos. Um participante chegou a se levantar e dizer que a tal nova política havia acabado de cair 15 pontos – em referência à queda de Bolsonaro na pesquisa Ibope divulgada anteontem.

Disputa aberta. Ibaneis, o ex-deputado Daniel Vilela (GO) e o governador Helder Barbalho (PA) são apontados como alternativa. Uma ala tenta emplacar a senadora Simone Tebet (MS), mas tem resistido à ideia.

Canja. Em público, líderes do MDB adotaram a cautela para comentar a prisão de Temer: “O importante é que o estado democrático de direito seja respeitado. Esperamos que a defesa do ex-presidente possa esclarecer todas as acusações”, disse Eduardo Braga (AM).

SINAIS PARTICULARES
Eduardo Braga, senador (MDB-AM)

ILUSTRAÇÃO: KLEBER SALES/ESTADÃO

Enxugar… Defensores da Lava Toga no Senado já se conformam em desidratar o pedido de investigação para apenas dois ou três itens. Alguns defendem que, com tom mais ameno e outro nome, a CPI terá mais chances de vingar.

… pra passar. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) faz a seguinte comparação: é como refrigerante; pode até mudar o nome, mas não a composição.

Ajuda aí. Um governista procurou Flávio Bolsonaro em busca de apoio do PSL para barrar a investigação.

CLICK. O ministro da Economia, Paulo Guedes, foi tietado por um fã que pediu para aparecer em fotos ao lado dele. Em Brasília, o assédio tem sido mais frequente.

FOTO: NAIRA TRINDADE/ESTADÃO

Matou… Diante da dificuldade na articulação do governo para aprovar a reforma da Previdência, o presidente da CCJ da Câmara, Felipe Francischini (PSL-PR) decidiu assumir o desgaste e adiar o anúncio de quem será o relator do PEC para a próxima semana.

… no peito. O projeto da reforma do militares, que desagradou até ao líder do PSL na Casa, Delegado Waldir, foi a gota d’água. Francishini mandou mensagens para os deputados da comissão na madrugada de ontem avisando que não havia “clima” para a indicação.

PRONTO, FALEI!

Marcio Bittar. FOTO: TOMAZ SILVA/AG. BRASIL

Márcio Bittar, senador (MDB-AC): “Nem sempre a maioria está certa. Se o Mandela não vai contra os que queriam revanche, a África do Sul teria tido guerra”, sobre pressão popular na Lava Toga

COM REPORTAGEM DE ALBERTO BOMBIG, JULIANA BRAGA E MARIANNA HOLANDA

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