Entrevista: ‘No Brasil, o mundo da política é machista’, diz Teresa Surita

Entrevista: ‘No Brasil, o mundo da política é machista’, diz Teresa Surita

Teresa (PMDB-RR) se reelegeu prefeita de Boa Vista com quase 80% dos votos

Marcelo de Moraes

31 Outubro 2016 | 05h00

Ilustração: Kleber Sales

Ilustração: Kleber Sales

Com quase 80% dos votos dos eleitores de Boa Vista, em Roraima, Teresa Surita foi a única mulher a se eleger no primeiro turno como prefeita numa capital. No momento em que o empoderamento feminino ganha cada vez mais força, essa mudança de cenário continua passando longe da política. Apenas outras duas mulheres chegaram ao segundo turno em capitais: Rose Modesto (PSDB), em Campo Grande, e Angela Amin (PP), em Florianópolis. Teresa chega à prefeitura pela quinta vez e avisa: “a política é machista, mas isso não me para”.

Uma prefeita em capitais
Acho que a política hoje não é atrativa para as mulheres. Porque é um espaço muito machista. Acredito que as mulheres foram perdendo o interesse. Sinceramente, acho que foram perdendo o interesse nessa luta muito bruta, muito masculina. E o que aconteceu com o impeachment de Dilma Rousseff, que é mulher, também teve influência.

Machismo
O eleitor não é machista. Mas o mundo da política é. Tem lugares e partidos aonde a política é feita por pessoas de idade, homens e machistas, que predominam.

Preconceito no Congresso
Fui duas vezes deputada federal. Senti muito isso dentro do Congresso. Você não tem espaço. As pessoas só tratam com você sobre assuntos sociais. Só te oferecem participação de atuação em comissões menores. A luta da mulher dentro da política, principalmente a nível nacional, é uma coisa onde você tem de provar sempre a sua capacidade.

Obstáculos
O que é muito claro na política, para mim, é que realmente é um espaço machista. Mas isso não me para. Porque, para mim, tanto faz. Porque faço política. Mas minha relação é maior com as pessoas, com a comunidade, com a cidade.

Dificuldades
Tenho mais facilidade de fazer parceria com o exterior do que no Brasil. Tudo aqui fica no eixo São Paulo, Rio, Minas Gerais. É cultural do nosso País. E não chegam lá em Roraima.

Busca de recursos
Boa Vista é uma cidade que está crescendo muito. Crescemos mais de 12% ao ano. E é uma cidade isolada. Nossa relação é maior com o exterior, com Venezuela e Guiana, do que com Manaus ou outra cidade mais para baixo. E temos poucos recursos. Fazemos tudo com muito planejamento.

Cidade-Estado
Temos 63% da população do Estado. É uma cidade complexa. Você tem 90% da frota de veículos. O único hospital infantil é da prefeitura. Tem de atender o Estado todo, as fronteiras.

Venezuela
A entrada maciça de venezuelanos, fugindo da crise de lá, me preocupa muito. Pacaraima não tem estrutura. É uma cidade pequenininha, de 3 mil pessoas. Então, estamos recebendo todos em Boa Vista, porque não ficam em Pacaraima. E você tem um comportamento dos venezuelanos diferente dos haitianos. Porque os haitianos vieram para o Brasil para ficar. Os venezuelanos estão perto de seu país para voltar assim que puderem. Então, param ali.

Doenças
O maior problema é Saúde. Estão entrando com malária, difteria. Não temos estrutura para atendê-los, nem vacinas suficientes.

Preconceito
A mão de obra deles é mais barata. Às vezes, trocam trabalho por comida. E isso está desempregando brasileiros na região. Já está tendo preconceito contra eles.

Prostituição
Nunca tivemos problema de prostituição dessa maneira. Agora, está bem visível. Tanto que a gente sempre leva para a fronteira e deixa em Santa Helena, junto com a Polícia Federal. Mas, em duas semanas, voltam. O Bolívar está muito desvalorizado. Então, se vier para o Brasil e ganhar R$ 10, volta para a Venezuela e alimenta a família.

Drama
A situação da Venezuela está muito difícil. Estão desabastecidos. Não tem comida. Compram tudo em Pacaraima. Estou esperando mais vinda de venezuelanos. Só que não estou preparada para isso.

Entrevista a Marcelo de Moraes

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